A
REGRA DE SÃO BENTO

E
A
DECLARAÇÃO DA VIDA CISTERCIENSE HODIERNA
§
RB :
§
De Vita Cisterciensi Hodierna. Declaratio Capituli Generalis Ordinis Cisterciensis. (ACG 44
(2000) 7-43).
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1 jan 2 mai
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scuta, filho, os preceitos do Mestre, e inclina o ouvido do
teu coração; recebe de boa vontade e executa eficazmente o conselho de um bom
pai, para que voltes, pelo labor da obediência, àquele de quem te afastaste
pela desídia da desobediência. A ti, pois, se dirige agora a minha palavra,
quem quer que sejas que, renunciando às próprias vontades, empunhas as
gloriosas e poderosíssimas armas da obediência para militar sob o Cristo
Senhor, verdadeiro Rei.
Antes de tudo, quando encetares algo de bom, pede-lhe com
oração muito insistente que seja por ele plenamente realizado, a fim de que
nunca venha a entristecer-se, por causa das nossas más ações, aquele que já se
dignou contar-nos no número de seus filhos; assim, pois, devemos obedecer-lhe
em todo tempo, usando de seus dons a nós concedidos para que não só não venha
jamais, como pai irado, a deserdar seus filhos, nem tenha também, qual Senhor
temível, irritado com nossas más ações, de entregar-nos à pena eterna como
péssimos servos que o não quiseram seguir para a glória.
1. Nós, membros do Capítulo Geral, reunidos
para a atualização da nossa Ordem[1], após madura deliberação e discussão dos
vários pareceres, resolvemos apresentar primeiramente os princípios
fundamentais da nossa vocação e da nossa vida para colocá-los como o alicerce
de todo o trabalho de renovação.
É nossa intenção
expor, com sinceridade e convenientemente, nessa Declaração, o que pretendemos
realizar como ajornamento, os fins a atingir e os meios a serem usados para
alcançá-los.
2. Com esta nossa Declaração, não queremos,
de modo algum, impedir ulteriores reflexões e novas soluções, porque também as
futuras gerações Cistercienses têm o direito e a responsabilidade de procurar
formas mais adaptadas e melhores da vida monástica, como o fizeram os Fundadores
de Cister, no século Xll e as gerações subseqüentes. Só seremos verdadeiramente
fiéis a nossos Pais, os fundadores do " Novo Mosteiro", se não
cessarmos de procurar caminhos e modos pelos quais possamos viver, cada dia
mais perfeitamente, a nossa vocação, segundo a vontade de Deus.
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2 jan 3 mai
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evantemo-nos então finalmente, pois a Escritura nos desperta
dizendo: "Já é hora de nos levantarmos do sono". E, com os olhos
abertos para a luz deífica, ouçamos, ouvidos atentos, o que nos adverte a voz
divina que clama todos os dias: "Hoje, se ouvirdes a sua voz, não
permitais que se endureçam vossos corações", e de novo: "Quem tem
ouvidos para ouvir, ouça o que o Espírito diz às igrejas". E que diz? –
"Vinde, meus filhos, ouvi-me, eu vos ensinarei o temor do Senhor. Correi
enquanto tiverdes a luz da vida, para que as trevas da morte não vos envolvam".
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3 jan 4 mai
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procurando o Senhor o
seu operário na multidão do povo, ao qual clama estas coisas, diz ainda:
"Qual é o homem que quer a vida e deseja ver dias felizes?" Se,
ouvindo, responderes: "Eu", dir-te-á Deus: "Se queres possuir a
verdadeira e perpétua vida, guarda a tua língua de dizer o mal e que teus
lábios não profiram a falsidade, afasta-te do mal e faze o bem, procura a paz e
segue-a". E quando tiveres feito isso, estarão meus olhos sobre ti e meus
ouvidos junto às tuas preces, e antes que me invoques dir-te-ei: "Eis-me
aqui". Que há de mais doce para nós, caríssimos irmãos, do que esta voz
do Senhor a convidar-nos? Eis que pela sua piedade nos mostra o Senhor o
caminho da vida.
11. Não é nossa intenção
apresentar um ideal teórico e alheio à vida para conservar ou restaurar formas
obsoletas, mas examinar e repensar nossa vida de hoje, moderna e concreta, para
fornecer-lhe os princípios da renovação. Esforçamo-nos por criar, eficaz e
autenticamente a vida monástica Cisterciense do século XXI, aquela que se
segue à vocação que nos é dada concretamente por Deus. Sim, Deus nos chama aqui
e agora. Quer que sejamos santos nesta época, nestas circunstâncias, com as possibilidades
do homem moderno. Quer que sigamos a Cristo e sirvamos aos homens na caridade.
Nossos trabalhos têm de se radicar sempre na verdade e na
realidade concreta da vida. Por isso, nesta Declaração, queremos ter sempre
diante dos olhos os trabalhos, as possibilidades, as exigências, os ministérios
de nossos monges e de nossas comunidades, como também a vida da Igreja e do
mundo hodierno.
Este sadio realismo, no entanto, não significa, em
absoluto, a aceitação ou a aprovação das imperfeições e dos vícios da situação
atual, como se, satisfeitos com a realidade vulgar e chã, não desejássemos
tender ao melhor. Rejeitamos, naturalmente, tudo isso, como contrário à própria
essência da vida religiosa e ao esforço para atingirmos a vida da caridade
perfeita. Mas, por outro lado, sabemos muito bem que os ideais e os programas,
por mais sublimes que sejam, de nada valem se os homens, aos quais são propostos,
não os recebem livremente, e de boa vontade e os realizam eficazmente.
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4 jan 5 mai
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ingidos, pois, os rins com a fé e a observância das boas
ações, guiados pelo Evangelho, trilhemos os seus caminhos para que mereçamos
ver aquele que nos chamou para o seu reino. Se queremos habitar na tenda real
do acampamento desse reino, é preciso correr pelo caminho das boas obras, de
outra forma nunca se há de chegar lá. Mas, com o profeta, interroguemos o
Senhor, dizendo-lhe: "Senhor, quem habitará na vossa tenda e descansará na
vossa montanha santa?". Depois dessa pergunta, irmãos, ouçamos o Senhor
que responde e nos mostra o caminho dessa mesma tenda, dizendo: "É aquele
que caminha sem mancha e realiza a justiça; aquele que fala a verdade no seu
coração, que não traz o dolo em sua língua, que não faz o mal ao próximo e não
dá acolhida à injúria contra o seu próximo". É aquele que quando o maligno diabo tenta persuadi-lo de alguma coisa,
repelindo-o das vistas do seu coração, a ele e suas sugestões, redu-lo a nada,
agarra os seus pensamentos ainda ao nascer e quebra-os de encontro ao Cristo.
São aqueles que, temendo o Senhor, não se
tornam orgulhosos por causa de sua boa observância, mas, julgando que mesmo as
coisas boas que têm em si não as puderam por si, mas foram feitas pelo
Senhor, glorificam Aquele que neles opera, dizendo com o profeta: "Não a
nós, Senhor, não a nós, mas ao vosso nome dai Glória". Como, aliás, o Apóstolo Paulo não atribuía a si
próprio coisa alguma de sua pregação, quando dizia: "Pela graça de Deus
sou o que sou" e ainda: "Quem se glorifica, que se glorifique no
Senhor".
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5 jan 6 mai 5 set |
is porque no Evangelho diz o Senhor: "Àquele que ouve
estas minhas palavras e as põe em prática, compará-lo-ei ao homem sábio que
edificou sua casa sobre a pedra, cresceram os rios, sopraram os ventos e investiram
contra a casa; e ela não ruiu porque estava fundada sobre pedra". Em
conclusão espera o Senhor todos os dias que nos empenhemos em responder com
atos às suas santas exortações. Por essa razão, os dias desta vida nos são
prolongados como tréguas para a emenda dos nossos vícios, conforme diz o
Apóstolo: "Então ignoras que a paciência de Deus te conduz à
penitência?". Pois diz o bom Senhor: "Não quero a morte do pecador,
mas sim que se converta e viva".
12. A atualização
abrangerá a totalidade de nossa vida. Assim, todos os seus elementos
constitutivos terão de ser revistos e a cada um será dada a devida importância.
Seria de todo errado relevar exageradamente alguns aspectos de nossa vida como
se a essência da vida Cisterciense consistisse unicamente neles e negligenciar
outros elementos, como se fossem simples apêndices ou até obstáculos para a
verdadeira vida monástica. Somos e devemos ser Cistercienses em cada momento
da vida, não apenas quando nos reunimos para rezar ou para as observâncias
comunitárias, mas também nos estudos, nos trabalhos, no ministério sacerdotal,
na oração par-ticular, atendendo às necessidades dos homens ou em outras
circunstâncias congêneres.
Procuremos, pois, ter uma visão global que
harmoniosamente integre todas as facetas da vida no único serviço do Senhor.
Se alguns elementos da vida Cisterciense moderna não dizem respeito a todos os
membros da Ordem (como o sacerdócio) ou não se relacionam com todos os mosteiros
(como a educação da juventude e a cura pastoral) devem ser, no entanto, considerados
com atenção e sua importância e obrigação sinceramente reconhecidos. Também os
elementos da vida monástica que, pouco ou de forma alguma, se encontrem na
Regra e nos inícios de Cister, não devem, por isso, ser taxados de secundários
ou duvidosos, pois a vida monástica, como todo ser vivo, cresce com o tempo,
evolui, assimila muitos elementos novos e rejeita outros tantos elementos
caducos.
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6 jan 7 mai
6 set |
omo, pois, irmãos, interrogássemos o Senhor a respeito de
quem mora em sua tenda, ouvimos em resposta, qual a condição para lá habitar:
a nós compete cumprir com a obrigação do morador!
Portanto, é
preciso preparar nossos corações e nossos corpos para militar na santa
obediência dos preceitos; e em tudo aquilo que nossa natureza tiver menores
possibilidades, roguemos ao Senhor que ordene a sua graça que nos preste
auxílio. E, se, fugindo das penas do inferno, queremos chegar à vida eterna, enquanto
é tempo, e ainda estamos neste corpo e é possível realizar todas essas coisas
no decorrer desta vida de luz, cumpre correr e agir, agora, de forma que nos
aproveite para sempre.
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7 jan 8 mai 7 set |
evemos, pois, constituir uma escola de serviço do Senhor.
Nesta instituição esperamos nada estabelecer de áspero ou de pesado. Mas se
aparecer alguma coisa um pouco mais rigorosa, ditada por motivo de eqüidade,
para emenda dos vícios ou conservação da caridade não fujas logo, tomado de
pavor, do caminho da salvação, que nunca se abre senão por estreito início.
Mas, com o progresso da vida monástica e da fé, dilata-se o coração e com
inenarrável doçura de amor é percorrido o caminho dos mandamentos de Deus. De
modo que não nos separando jamais do seu magistério e perseverando no
mosteiro, sob a sua doutrina, até a morte, participemos, pela paciência, dos
sofrimentos do Cristo a fim de também merecermos ser co-herdeiros de seu
reino. Amém.
13. As formas
institucionais, nas quais concretamente se manifesta, hoje em dia, a vida
Cisterciense são as diversas comunidades vivas. Verifica-se, porém, que nossas
comunidades, no decurso dos tempos, assumiram, em várias regiões, formas
diversas de vida e vários encargos. Tal pluralismo, em si, não é para se
deplorar, como se tratasse de uma absurda decadência; seja aceito, não apenas
como um fato consumado, e sim como um sinal de vida e um convite de Deus a ser
levado adiante[2].
Os valores e diversos ministérios de cada Congregação e mosteiro, se entre eles
reina a confiança mútua, poderão contribuir, através da colaboração das
comunidades, para o bem e o progresso de toda a Ordem. É de muito mais valor o
pluralismo na concórdia dos corações, do que uma rígida uniformidade[3],
realizada pela coação e com a discórdia interna. O Capítulo Geral, portanto,
reconhece e promove a legítima autonomia de cada Congregação e mosteiro nas
suas formas de vida, que deverão ser aperfeiçoadas, e procurará auxiliá-los nos
seus esforços[4].
No trabalho da atualização é, pois, de máxima importância
que cada comunidade conheça e reconsidere sua própria finalidade e seus
valores e estabeleça suas formas de vida adequadamente, pois a responsabilidade
desse trabalho reverte primeiramente a cada comunidade. O Capítulo Geral visa
apenas ajudar, promovendo e coordenando os trabalhos do ajornamento, mas não
pode assumir nem suprimir o trabalho que compete a cada mosteiro e Congregação[5].
14. Expostos estes
princípios, desejamos que a atualização da vida Cisterciense seja uma
continuação natural e um desenvolvimento orgânico da secular tradição monástica
e Cisterciense. Queremos, sim, conhecer (e até mais cuidadosamente do que
antes) as tradições monás-ticas e Cistercienses e pretendemos usufruir delas
freqüentemente para nosso bem e inspiração. Não queremos, porém, ficar de tal
modo obcecados por ela que isso nos faça relegar a solução dos problemas hodiernos,
dos quais os antigos muito pouco ou talvez nada conheceram por causa das
condições de vida, radicalmente outras. Não nos é lícito renunciar à própria
responsabilidade na atualização de nossa vida religiosa nem recear os novos
caminhos e as novas soluções. A história deve ser para nós uma mestra que nos
admoeste e inspire e nunca uma tirana que nos coíba .
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8 jan 9 mai
8 set |
sabido que há quatro
gêneros de monges. O primeiro é o dos cenobitas, isto é, o monasterial, dos que
militam sob uma Regra e um Abade. O segundo gênero é o dos anacoretas, isto é,
dos eremitas, daqueles que, não por um fervor inicial da vida monástica, mas
através de provação diuturna no mosteiro, instruídos então na companhia de
muitos aprenderam a lutar contra o demônio e, bem adestrados nas fileiras
fraternas, já estão seguros para a luta isolada do deserto, sem a consolação de
outrem, e aptos para combater com as próprias mãos e braços, ajudando-os
Deus, contra os vícios da carne e dos pensamentos.
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9 jan 10 mai 9 set |
terceiro gênero de
monges, e detestável, é o dos sarabaítas, que, não tendo sido provados, como o
ouro na fornalha, por nenhuma regra, mestra pela experiência, mas amolecidos
como numa natureza de chumbo, conservam-se por suas obras fiéis ao século, e
são conhecidos por mentir a Deus pela tonsura. São aqueles que se encerram dois
ou três ou mesmo sozinhos, sem pastor, não nos apriscos do Senhor, mas nos seus
próprios; a satisfação dos desejos é para eles lei, visto que tudo quanto
julgam dever fazer ou preferem, chamam de santo, e o que não desejam reputam
ilícito. O quarto gênero de monges é o chamado dos giróvagos, que por toda a
sua vida se hospedam nas diferentes províncias, por três ou quatro dias nas
celas de outros monges, sempre vagando e nunca estáveis, escravos das próprias
vontades e das seduções da gula, e em tudo piores que os sarabaítas. Sobre o
misérrimo modo de vida de todos esses é melhor calar que dizer algo.
Deixando-os de parte, vamos dispor, com o auxilio do Senhor, sobre o poderosíssimo
gênero dos cenobitas.
79. Seguindo a nossa
vocação, entramos no mosteiro Cisterciense que livremente escolhemos, para
recebermos os ensinamentos da escola do serviço do Senhor[6];
depois assumimos, por livre vontade, ao emitir a profissão, as tarefas e os
ideais da vida do nosso mosteiro[7].
Portanto, a vida monástica não nos foi imposta, mas aceita por livre e
voluntária consagração. Assim, nossas comunidades são formadas por "voluntárias"
que aspiram ao mesmo fim, conhecido por todos e por todos desejado. Habitamos,
deste modo, unânimes no mosteiro e temos um só coração e uma só alma[8].
80. A base vital, portanto,
da comunidade monástica é a livre e voluntária consagração dos monges, que têm
em grande estima os valores e as tarefas da vida do mosteiro e os assumem como
seus. Essa livre consagração e alegre convicção é a força que os move e às observâncias
das leis e é também o fundamento de toda a estrutura jurídica. Faltando ela, a
comunidade monástica, como qualquer sociedade composta de pessoas reunidas
por livre vontade, perde a sua vitalidade. É, pois, sumamente importante que os
monges conservem viva e ardente essa livre decisão pela qual abraçaram
livremente a vida monástica e que qualquer ordem e estruturação da vida
comunitária leve em conta essa livre vontade e deliberação, procurando
promovê-la e desenvolvê-la.
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10 jan 11 mai 10 set |
Abade digno de
presidir ao mosteiro, deve lembrar-se sempre daquilo que é chamado, e
corresponder pelas ações ao nome de superior. Com efeito, crê-se que, no
mosteiro ele faz as vezes do Cristo, pois é chamado pelo mesmo cognome que
Este, no dizer do Apóstolo: "Recebestes o espírito de adoção de filhos, no
qual clamamos: ABBA, Pai." Por isso o Abade nada deve ensinar, determinar
ou ordenar, que seja contrário ao preceito do Senhor, mas que a sua ordem e ensinamento,
como o fermento da divina justiça se espalhe na mente dos discípulos; lembre-se
sempre o abade de que da sua doutrina e da obediência dos discípulos, de ambas
essas coisas, será feita apreciação no tremendo juízo de Deus.
E saiba o
Abade que é atribuído à culpa do pastor tudo aquilo que o Pai de família puder
encontrar de menos no progresso das ovelhas. Em compensação, de outra maneira
será, se a um rebanho irrequieto e desobediente tiver sido dispensada toda
diligência do pastor e oferecido todo o empenho na cura de seu atos malsãos;
absolvido então o pastor no juízo do Senhor, diga ao mesmo com o Profeta:
"Não escondi vossa justiça em meu coração, manifestei vossa verdade e a
vossa salvação; eles, porém, com desdém desprezaram-me". E então,
finalmente, que prevaleça a própria morte como pena para as ovelhas que desobedeceram
aos seus cuidados.
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11 jan 12 mai 11 set |
ortanto, quando alguém recebe o nome de Abade, deve presidir
a seus discípulos usando de uma dupla doutrina, isto é, apresente as coisas
boas e santas, mais pelas ações do que pelas palavras, de modo que aos discípulos
capazes de entendê-las proponha os mandamentos do Senhor por meio de palavras,
e aos duros de coração e aos mais simples mostre os preceitos divinos pelas
próprias ações. Assim, tudo quanto ensinar aos discípulos como sendo nocivo,
indique pela sua maneira de agir que não se deve praticar, a fim de que. pregando
aos outros, não se torne ele próprio réprobo, e Deus não lhe diga um dia como
a um pecador: "Por que narras as minhas leis e anuncias o meu testamento
pela tua boca? tu que odiaste a disciplina e atiraste para trás de ti as
minhas palavras", e ainda: "Vias o argueiro no olho de teu irmão e
não viste a trave no teu próprio".
94. O Abade, antes de tudo,
é o pastor das almas, isto é, o seu múnus, e, antes de tudo, espiritual,
visando o bem das almas[9]. Sua
autoridade é uma diaconia, tem o caráter de um humilde serviço, conforme a
doutrina e o exemplo do Cristo, a quem representa[10].
Convém, pois, que tenha e manifeste por seus irmãos aquele amor paterno com o
qual o Pai celeste ama os monges[11].
95. O Abade é, além disso,
mediador da Palavra de Deus, desempenhando o ofício de intérprete das Sagradas
Escrituras nas múltiplas circunstâncias da vida de cada dia. O Abade nunca
pode prevalecer sobre a Palavra divina, mas, ao contrário, deve ser-lhe cada
vez mais submisso.
96. Não é de menor
importância o outro ofício do Abade, que o Apóstolo indica pelo nome de
discernimento dos espíritos[12]. O
Abade deve esforçar-se por discernir se cada um de seus monges é conduzido pelo
Espírito de Deus ou se é enganado por suas aspirações meramente terrenas, por
seu próprio eu ou pelo espírito da mentira. E para que possa discernir a voz do
Espírito Santo de qualquer outra voz, é mister que ele próprio seja versado,
tanto na doutrina como na experiência das coisas espirituais.
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12 jan 13 mai 12 set |
ue não seja feita por ele distinção de pessoas no mosteiro.
Que um não seja mais amado que outro, a não ser aquele que for reconhecido
melhor nas boas ações ou na obediência. Não anteponha o nascido livre ao originário
de condição servil, a não ser que exista outra causa razoável para isso; pois
se parecer ao Abade que deve fazê-lo por questão de justiça, fá-lo-á seja qual
for a condição social; caso contrário, mantenham todos seus próprios lugares,
porque, servo ou livre, somos todos um em Cristo e sob um só Senhor caminhamos
submissos na mesma milícia de servidão: "Porque não há em Deus acepção de
pessoas". Somente num ponto somos por ele distinguidos, isto é, se formos
melhores do que os outros nas boas obras e humildes. Seja pois igual a caridade
dele para com todos; que uma só disciplina seja proposta a todos, conforme os
merecimentos de cada um.
97.
O Abade é o centro da unidade
da comunidade, promovendo a concórdia de todos com relação aos fins comuns e coordenando
os esforços e trabalhos de todos os monges. Por isso, o Abade deve ter em
grande apreço, compreender e tratar com o devido respeito a pessoa de cada
monge. Cuide de ter tempo disponível e o coração aberto para todos os monges;
incite-os, não a uma obediência qualquer, mas a uma obediência ativa e
responsável à cordial colaboração de cada um, para que os dons de todos dêem
frutos no serviço de Deus; procure promover um diálogo sincero e aberto; ponha
os monges a par das preocupações e planos da vida do mosteiro e de todos os
negócios da casa, pois tudo isso lhes diz respeito. Assuma, porém, a responsabilidade
do que lhe compete, por ofício, quando tiver decidido com precisão aquilo que,
após diligente exame, lhe parece ser a vontade de Deus.
98.
O Abade, para suscitar a
unidade, rejeite tudo o que tende a separá-lo de seus monges; leve a vida
regular com os irmãos, apresentando-se como modelo de fidelidade e zelo;
restrinja ao mínimo possível os assuntos que exigem sua ausência do mosteiro.
Mesmo sendo Abade, ele permanece monge e irmão entre os irmãos e, assim, como
centro de unidade e caridade, entregue-se totalmente aos irmãos no amor do
Cristo.
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13 jan 14 mai 13 set |
ortanto, em sua doutrina deve sempre o Abade observar aquela
fórmula do Apóstolo: "Repreende, exorta, admoesta", isto é,
temperando as ocasiões umas com as outras, os carinhos com os rigores, mostre
a severidade de um mestre e o pio afeto de um pai, quer dizer: aos
indisciplinados e inquietos deve repreender mais duramente, mas aos obedientes,
mansos e pacientes, deve exortar a que progridam ainda mais, e quanto aos negligentes
e desdenhosos, advertimos que os repreenda e castigue. Não dissimule as faltas
dos culpados, mas logo que começarem a brotar ampute-as pela raiz, como lhe for
possível, lembrando-se da desgraça de Heli, sacerdote de Silo. Aos mais honestos
e de ânimo compreensível, censure por palavras em primeira e segunda
advertência; porém aos improbos, duros e soberbos ou desobedientes reprima com
varadas ou outro castigo corporal, desde o início da falta, sabendo que está
escrito: "O estulto não se corrige com palavras". E mais: "Bate
no teu filho com a vara e livrarás a sua alma da morte".
115. O Abade Presidente
governa a Congregação de acordo com o Capítulo da Congregação e é o sinal do
amor fraterno pelo qual os mosteiros se unem. Ele trabalha para que nas
famílias monásticas a vida religiosa floresça convenientemente, firme-se e se
desenvolva, conforme as Constituições da Congregação.
Cabe-lhe fomentar as relações entre os mosteiros para o
bem de toda a Congregação. Convém que, neste ponto, os Abades e os monges de todos
os mosteiros ajudem o Abade Presidente, alimentando as relações fraternas
entre si, recebendo-se uns aos outros de bom grado, participando dos esforços,
encontrando-se para conferências sobre assuntos espirituais ou administrativos
e procurando conhecer-se e estimar-se mutuamente.