A REGRA DE SÃO BENTO

 

 

E

A DECLARAÇÃO DA VIDA CISTERCIENSE HODIERNA

 

§               RB :

§               De Vita Cisterciensi Hodierna. Declaratio Capituli Generalis Ordinis Cisterciensis. (ACG 44 (2000) 7-43).

 

 

 

 

 

PRÓLOGO DA REGRA

RB Pról. 1-7

1 jan  2 mai  1 set

 
E

scuta, filho, os preceitos do Mestre, e inclina o ouvido do teu coração; recebe de boa vontade e executa efi­cazmente o conselho de um bom pai, para que voltes, pelo labor da obediência, àquele de quem te afastaste pela desídia da desobediência. A ti, pois, se dirige agora a minha palavra, quem quer que sejas que, renunciando às próprias vontades, empunhas as gloriosas e poderosíssimas armas da obediência para militar sob o Cristo Senhor, verdadeiro Rei.

Antes de tudo, quando encetares algo de bom, pede-lhe com oração muito insistente que seja por ele plenamente realizado, a fim de que nunca venha a entristecer-se, por causa das nossas más ações, aquele que já se dignou contar-nos no número de seus filhos; assim, pois, de­vemos obedecer-lhe em todo tempo, usando de seus dons a nós concedidos para que não só não venha jamais, como pai irado, a de­serdar seus filhos, nem tenha também, qual Senhor temível, irritado com nossas más ações, de entregar-nos à pena eterna como péssimos servos que o não quiseram seguir para a glória.

Declaratio arts. 1-2

1. Nós, membros do Capítulo Geral, reunidos para a atualização da nos­sa Ordem[1], após madura deliberação e discussão dos vários pareceres, resolvemos apresentar primei­ramente os princípios fundamentais da nossa vocação e da nossa vida para colocá-los como o alicerce de todo o trabalho de renovação.

É nossa intenção expor, com sinceridade e convenientemente, nessa De­claração, o que pretendemos realizar como ajornamento, os fins a atin­gir e os meios a serem usados para alcançá-los.

2. Com esta nossa Declaração, não queremos, de modo algum, impedir ulteriores reflexões e novas soluções, porque também as futuras ge­rações Cistercienses têm o direito e a responsabilidade de procurar formas mais adaptadas e melhores da vida monástica, como o fizeram os Fundadores de Cister, no século Xll e as gerações subseqüentes. Só se­remos verdadeiramente fiéis a nossos Pais, os fundadores do " Novo Mosteiro", se não cessarmos de procurar caminhos e modos pelos quais possamos viver, cada dia mais perfeitamente, a nossa vocação, segundo a vontade de Deus.

RB Pról. 8-13

2 jan  3 mai  2 set

 
L

evantemo-nos então finalmente, pois a Escritura nos desperta dizendo: "Já é hora de nos levantarmos do sono". E, com os olhos abertos para a luz deífica, ou­çamos, ouvidos atentos, o que nos adverte a voz divina que clama todos os dias: "Hoje, se ouvirdes a sua voz, não permitais que se endureçam vossos corações", e de novo: "Quem tem ouvidos para ouvir, ouça o que o Espírito diz às igrejas". E que diz? – "Vinde, meus filhos, ouvi-me, eu vos ensinarei o temor do Senhor. Correi enquanto tiverdes a luz da vida, para que as trevas da morte não vos envolvam".

RB Pról. 14-20

3 jan  4 mai  3 set

 
  E

 procurando o Senhor o seu operário na multidão do povo, ao qual clama estas coisas, diz ainda: "Qual é o homem que quer a vida e deseja ver dias felizes?" Se, ouvindo, responderes: "Eu", dir-te-á Deus: "Se queres possuir a verdadeira e perpétua vida, guarda a tua língua de dizer o mal e que teus lábios não profiram a falsidade, afasta-te do mal e faze o bem, procura a paz e segue-a". E quando tiveres feito isso, estarão meus olhos sobre ti e meus ouvidos junto às tuas preces, e antes que me invoques dir-te-ei: "Eis-me aqui". Que há de mais doce para nós, caríssimos ir­mãos, do que esta voz do Senhor a convidar-nos? Eis que pela sua pie­dade nos mostra o Senhor o caminho da vida.

Declaratio art.11

11. Não é nossa intenção apresentar um ideal teórico e alheio à vida para conservar ou restaurar formas obsoletas, mas examinar e repensar nossa vida de hoje, moderna e concreta, para fornecer-lhe os princípios da re­novação. Esforçamo-nos por criar, eficaz e autenticamente a vida mo­nástica Cisterciense do século XXI, aquela que se segue à vocação que nos é dada concretamente por Deus. Sim, Deus nos chama aqui e agora. Quer que sejamos santos nesta época, nestas circunstâncias, com as pos­sibilidades do homem moderno. Quer que sigamos a Cristo e sirvamos aos homens na caridade.

Nossos trabalhos têm de se radicar sempre na verdade e na realidade concreta da vida. Por isso, nesta Declaração, queremos ter sempre diante dos olhos os trabalhos, as possibilidades, as exigências, os ministérios de nossos monges e de nossas comunidades, como também a vida da Igreja e do mundo hodierno.

Este sadio realismo, no entanto, não significa, em absoluto, a aceitação ou a aprovação das imperfeições e dos vícios da situação atual, como se, satisfeitos com a realidade vulgar e chã, não desejássemos tender ao melhor. Rejeitamos, naturalmente, tudo isso, como contrário à própria es­sência da vida religiosa e ao esforço para atingirmos a vida da caridade perfeita. Mas, por outro lado, sabemos muito bem que os ideais e os programas, por mais sublimes que sejam, de nada valem se os ho­mens, aos quais são propostos, não os recebem livremente, e de boa vontade e os realizam eficazmente.

RB Pról. 21-32

4 jan  5 mai  4 set

 
C

ingidos, pois, os rins com a fé e a observância das boas ações, guiados pelo Evangelho, trilhemos os seus ca­minhos para que mereçamos ver aquele que nos chamou para o seu reino. Se queremos habitar na tenda real do acampamento desse reino, é preciso correr pelo caminho das boas obras, de outra forma nunca se há de chegar lá. Mas, com o pro­feta, interroguemos o Senhor, dizendo-lhe: "Senhor, quem habitará na vossa tenda e descansará na vossa montanha santa?". Depois dessa pergunta, irmãos, ouçamos o Senhor que responde e nos mostra o ca­minho dessa mesma tenda, dizendo: "É aquele que caminha sem mancha e realiza a justiça; aquele que fala a verdade no seu coração, que não traz o dolo em sua língua, que não faz o mal ao próximo e não dá aco­lhida à injúria contra o seu próximo". É aquele que quando o maligno diabo tenta persuadi-lo de alguma coisa, repelindo-o das vistas do seu co­ração, a ele e suas sugestões, redu-lo a nada, agarra os seus pensa­mentos ainda ao nascer e quebra-os de encontro ao Cristo. São aqueles que, temendo o Senhor, não se tornam orgulhosos por causa de sua boa obser­vância, mas, julgando que mesmo as coisas boas que têm em si não as pu­de­ram por si, mas foram feitas pelo Senhor, glorificam Aquele que neles opera, dizendo com o profeta: "Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao vosso nome dai Glória". Como, aliás, o Apóstolo Paulo não atribuía a si próprio coisa alguma de sua pregação, quando dizia: "Pela graça de Deus sou o que sou" e ainda: "Quem se glorifica, que se glorifique no Senhor".

RB Pról. 33-38

5 jan  6 mai 5 set

 
E

is porque no Evangelho diz o Senhor: "Àquele que ouve estas minhas palavras e as põe em prática, com­pará-lo-ei ao homem sábio que edificou sua casa sobre a pedra, cresceram os rios, sopraram os ventos e inves­tiram contra a casa; e ela não ruiu porque estava fundada sobre pedra". Em conclusão espera o Senhor todos os dias que nos empenhemos em res­ponder com atos às suas santas exortações. Por essa razão, os dias desta vida nos são prolongados como tréguas para a emenda dos nossos vícios, conforme diz o Apóstolo: "Então ignoras que a paciência de Deus te conduz à penitência?". Pois diz o bom Senhor: "Não quero a mor­te do pecador, mas sim que se converta e viva".

Declaratio art. 12

12. A atualização abrangerá a totalidade de nossa vida. Assim, todos os seus elementos constitutivos terão de ser revistos e a cada um será dada a devida importância. Seria de todo errado relevar exageradamente al­guns aspectos de nossa vida como se a essência da vida Cisterciense consistisse unicamente neles e negligenciar outros elementos, como se fossem simples apêndices ou até obstáculos para a verdadeira vida monástica. Somos e de­vemos ser Cistercienses em cada momento da vida, não apenas quando nos reunimos para rezar ou para as observâncias comunitárias, mas tam­bém nos estudos, nos trabalhos, no ministério sacerdotal, na oração par-ti­cular, atendendo às necessidades dos homens ou em outras circun­stâncias congêneres.

Procuremos, pois, ter uma visão global que harmoniosamente integre to­das as facetas da vida no único serviço do Senhor. Se alguns elementos da vida Cisterciense moderna não dizem respeito a todos os membros da Ordem (como o sacerdócio) ou não se relacionam com todos os mos­teiros (como a educação da juventude e a cura pastoral) devem ser, no en­tanto, considerados com atenção e sua importância e obrigação sin­ceramente reconhecidos. Também os elementos da vida monástica que, pouco ou de forma alguma, se encontrem na Regra e nos inícios de Cis­ter, não devem, por isso, ser taxados de secundários ou duvidosos, pois a vi­da monástica, como todo ser vivo, cresce com o tempo, evolui, assi­mila muitos elementos novos e rejeita outros tantos elementos caducos.

RB Pról. 39-44

6 jan  7 mai  6 set

 
C

omo, pois, irmãos, interrogássemos o Senhor a res­peito de quem mora em sua tenda, ouvimos em res­pos­ta, qual a condição para lá habitar: a nós compete cumprir com a obrigação do morador!

            Portanto, é preciso preparar nossos corações e nossos corpos pa­ra militar na santa obediência dos preceitos; e em tudo aquilo que nossa natureza tiver menores possibilidades, roguemos ao Senhor que ordene a su­a graça que nos preste auxílio. E, se, fugindo das penas do inferno, que­remos chegar à vida eterna, enquanto é tempo, e ainda estamos neste corpo e é possível realizar todas essas coisas no decorrer desta vida de luz, cumpre correr e agir, agora, de forma que nos aproveite para sempre.

RB Pról. 45-50

7 jan  8 mai 7 set

 
D

evemos, pois, constituir uma escola de serviço do Senhor. Nesta instituição esperamos nada estabelecer de áspero ou de pesado. Mas se aparecer alguma coisa um pouco mais rigorosa, ditada por motivo de eqüidade, para emenda dos vícios ou conservação da caridade não fujas logo, tomado de pavor, do caminho da salvação, que nunca se abre se­não por estreito início. Mas, com o progresso da vida monástica e da fé, dilata-se o coração e com inenarrável doçura de amor é percorrido o caminho dos mandamentos de Deus. De modo que não nos separando ja­mais do seu magistério e perseverando no mosteiro, sob a sua dou­trina, até a morte, participemos, pela paciência, dos sofrimentos do Cris­to a fim de também merecermos ser co-herdeiros de seu reino. Amém.

Declaratio arts. 13-14

13. As formas institucionais, nas quais concretamente se manifesta, hoje em dia, a vida Cisterciense são as diversas comunidades vivas. Verifica-se, porém, que nossas comunidades, no decurso dos tempos, assumiram, em várias regiões, formas diversas de vida e vários encargos. Tal plu­ralismo, em si, não é para se deplorar, como se tratasse de uma absurda decadência; seja aceito, não apenas como um fato consumado, e sim co­mo um sinal de vida e um convite de Deus a ser levado adiante[2]. Os valores e diversos ministérios de cada Congregação e mosteiro, se entre eles reina a confiança mútua, poderão contribuir, através da colaboração das comunidades, para o bem e o progresso de toda a Ordem. É de mui­to mais valor o pluralismo na concórdia dos corações, do que uma rígida uni­formidade[3], realizada pela coação e com a discórdia interna. O Ca­pítulo Geral, portanto, reconhece e promove a legítima autonomia de cada Con­gregação e mosteiro nas suas formas de vida, que deverão ser aperfeiçoadas, e procurará auxiliá-los nos seus esforços[4].

No trabalho da atualização é, pois, de máxima importância que cada co­mu­nidade conheça e reconsidere sua própria finalidade e seus valores e estabeleça suas formas de vida adequadamente, pois a responsabilidade desse trabalho reverte primeiramente a cada comunidade. O Capítulo Ge­ral visa apenas ajudar, promovendo e coordenando os trabalhos do ajor­namento, mas não pode assumir nem suprimir o trabalho que compete a cada mosteiro e Congregação[5].

14. Expostos estes princípios, desejamos que a atualização da vida Cisterciense seja uma continuação natural e um desenvolvimento orgânico da secular tradição monástica e Cisterciense. Queremos, sim, con­hecer (e até mais cuidadosamente do que antes) as tradições monás-ticas e Cistercienses e pretendemos usufruir delas freqüentemente para nosso bem e inspiração. Não queremos, porém, ficar de tal modo obce­cados por ela que isso nos faça relegar a solução dos problemas ho­diernos, dos quais os antigos muito pouco ou talvez nada conheceram por causa das condições de vida, radicalmente outras. Não nos é lícito re­nunciar à própria responsabilidade na atualização de nossa vida religiosa nem recear os novos caminhos e as novas soluções. A história deve ser para nós uma mestra que nos admoeste e inspire e nunca uma tirana que nos coíba .

Capítulo 1 Dos gêneros de monges

8 jan  9 mai  8 set

 
  É

RB 1,1-5

 sabido que há quatro gêneros de monges. O primeiro é o dos cenobitas, isto é, o monasterial, dos que militam sob uma Regra e um Abade. O segundo gênero é o dos anacoretas, isto é, dos ere­mitas, daqueles que, não por um fervor inicial da vida monástica, mas através de provação diuturna no mosteiro, instruídos en­tão na companhia de muitos aprenderam a lutar contra o demônio e, bem adestrados nas fileiras fraternas, já estão seguros para a luta isolada do deserto, sem a consolação de outrem, e ap­tos para combater com as pró­prias mãos e braços, ajudando-os Deus, contra os vícios da carne e dos pensamentos.

RB 1,6-13

9 jan  10 mai 9 set

 
O

 terceiro gênero de monges, e detestável, é o dos sarabaítas, que, não tendo sido provados, como o ou­ro na fornalha, por nenhuma regra, mestra pela ex­periência, mas amolecidos como numa natureza de chumbo, conservam-se por suas obras fiéis ao século, e são conhecidos por mentir a Deus pela tonsura. São aqueles que se encerram dois ou três ou mesmo sozinhos, sem pastor, não nos apriscos do Senhor, mas nos seus próprios; a satisfação dos desejos é para eles lei, visto que tudo quanto julgam dever fazer ou preferem, chamam de santo, e o que não desejam reputam ilícito. O quarto gênero de monges é o chamado dos giróvagos, que por to­da a sua vida se hospedam nas diferentes províncias, por três ou qua­tro dias nas celas de outros monges, sempre vagando e nunca estáveis, escravos das próprias vontades e das seduções da gula, e em tudo piores que os sarabaítas. Sobre o misérrimo modo de vida de todos esses é melhor calar que dizer algo. Deixando-os de parte, vamos dispor, com o auxilio do Senhor, sobre o poderosíssimo gênero dos cenobitas.

Declaratio arts. 79-80

79. Seguindo a nossa vocação, entramos no mosteiro Cisterciense que livremente escolhemos, para recebermos os ensinamentos da escola do serviço do Senhor[6]; depois assumimos, por livre vontade, ao emitir a pro­fissão, as tarefas e os ideais da vida do nosso mosteiro[7]. Portanto, a vida monástica não nos foi imposta, mas aceita por livre e voluntária consagração. Assim, nossas comunidades são formadas por "vo­luntárias" que aspiram ao mesmo fim, conhecido por todos e por todos desejado. Habitamos, deste modo, unânimes no mosteiro e temos um só coração e uma só alma[8].

80. A base vital, portanto, da comunidade monástica é a livre e vo­luntária consagração dos monges, que têm em grande estima os va­lores e as tarefas da vida do mosteiro e os assumem como seus. Essa li­vre consagração e alegre convicção é a força que os move e às ob­servâncias das leis e é também o fundamento de toda a estrutura jurí­dica. Faltando ela, a comunidade monástica, como qualquer socie­dade com­posta de pessoas reunidas por livre vontade, perde a sua vitalidade. É, pois, sumamente importante que os monges conservem viva e ardente es­sa livre decisão pela qual abraçaram livremente a vida monástica e que qualquer ordem e estruturação da vida comunitária leve em conta es­sa livre vontade e deliberação, procurando promovê-la e desenvolvê-la.

Capítulo 2 Como deve ser o Abade

RB 2,1-10

10 jan 11 mai 10 set

 
O

 Abade digno de presidir ao mosteiro, deve lembrar-se sempre daquilo que é chamado, e corresponder pelas ações ao nome de superior. Com efeito, crê-se que, no mosteiro ele faz as vezes do Cristo, pois é chamado pelo mesmo cognome que Este, no dizer do Apóstolo: "Recebestes o espírito de adoção de filhos, no qual clamamos: ABBA, Pai." Por isso o Abade nada deve ensinar, determinar ou ordenar, que se­ja contrário ao preceito do Senhor, mas que a sua ordem e en­sinamento, como o fermento da divina justiça se espalhe na mente dos discípulos; lembre-se sempre o abade de que da sua doutrina e da obediência dos discípulos, de ambas essas coisas, será feita apreciação no tremendo juízo de Deus.

            E saiba o Abade que é atribuído à culpa do pastor tudo aquilo que o Pai de família puder encontrar de menos no progresso das ovelhas. Em compensação, de outra maneira será, se a um rebanho irrequieto e desobediente tiver sido dispensada toda diligência do pastor e oferecido todo o empenho na cura de seu atos malsãos; absolvido então o pastor no juízo do Senhor, diga ao mesmo com o Profeta: "Não escondi vossa justiça em meu coração, manifestei vossa verdade e a vossa salvação; eles, porém, com desdém desprezaram-me". E então, finalmente, que prevaleça a própria morte como pena para as ovelhas que desobedeceram aos seus cuidados.

RB 2,11-15

11 jan 12 mai 11 set

 
P

ortanto, quando alguém recebe o nome de Abade, deve presidir a seus discípulos usando de uma dupla dou­trina, isto é, apresente as coisas boas e santas, mais pe­las ações do que pelas palavras, de modo que aos di­scí­pulos capazes de entendê-las proponha os mandamentos do Senhor por meio de palavras, e aos duros de coração e aos mais simples mostre os pre­ceitos divinos pelas próprias ações. Assim, tudo quanto ensinar aos discípulos como sendo nocivo, indique pela sua maneira de agir que não se deve praticar, a fim de que. pregando aos outros, não se torne ele pró­prio réprobo, e Deus não lhe diga um dia como a um pecador: "Por que nar­ras as minhas leis e anuncias o meu testamento pela tua boca? tu que o­diaste a disciplina e atiraste para trás de ti as minhas palavras", e ainda: "Vias o argueiro no olho de teu irmão e não viste a trave no teu próprio".

Declaratio arts. 94-96

94. O Abade, antes de tudo, é o pastor das almas, isto é, o seu múnus, e, antes de tudo, espiritual, visando o bem das almas[9]. Sua autoridade é uma diaconia, tem o caráter de um humilde serviço, conforme a doutrina e o exemplo do Cristo, a quem representa[10]. Convém, pois, que tenha e manifeste por seus irmãos aquele amor paterno com o qual o Pai celeste ama os monges[11].

95. O Abade é, além disso, mediador da Palavra de Deus, desempenhando o ofício de intérprete das Sagradas Escrituras nas múl­tiplas circunstâncias da vida de cada dia. O Abade nunca pode prevalecer sobre a Palavra divina, mas, ao contrário, deve ser-lhe cada vez mais submisso.

96. Não é de menor importância o outro ofício do Abade, que o Após­tolo indica pelo nome de discernimento dos espíritos[12]. O Abade deve esforçar-se por discernir se cada um de seus monges é conduzido pelo Espírito de Deus ou se é enganado por suas aspirações meramente ter­renas, por seu próprio eu ou pelo espírito da mentira. E para que possa discernir a voz do Espírito Santo de qualquer outra voz, é mister que ele próprio seja versado, tanto na doutrina como na experiência das coisas espirituais.

RB 2,16-22

12 jan 13 mai 12 set

 
Q

ue não seja feita por ele distinção de pessoas no mosteiro. Que um não seja mais amado que outro, a não ser aquele que for reconhecido melhor nas boas ações ou na obediência. Não anteponha o nascido li­vre ao originário de condição servil, a não ser que exista outra causa razoável para isso; pois se parecer ao Abade que deve fazê-lo por questão de justiça, fá-lo-á seja qual for a condição social; caso contrário, mantenham todos seus próprios lugares, porque, servo ou livre, somos todos um em Cristo e sob um só Senhor caminhamos sub­missos na mesma milícia de servidão: "Porque não há em Deus acepção de pessoas". Somente num ponto somos por ele distinguidos, isto é, se for­mos melhores do que os outros nas boas obras e humildes. Seja pois igual a caridade dele para com todos; que uma só disciplina seja pro­posta a todos, conforme os merecimentos de cada um.

Declaratio arts. 97-98

97.               O Abade é o centro da unidade da comunidade, promovendo a concórdia de todos com relação aos fins comuns e coordenando os esforços e trabalhos de todos os monges. Por isso, o Abade deve ter em grande apreço, compreender e tratar com o devido respeito a pessoa de ca­da monge. Cuide de ter tempo disponível e o coração aberto para todos os monges; incite-os, não a uma obediência qualquer, mas a uma obe­diência ativa e responsável à cordial colaboração de cada um, para que os dons de todos dêem frutos no serviço de Deus; procure promover um diálogo sincero e aberto; ponha os monges a par das preocupações e planos da vida do mosteiro e de todos os negócios da casa, pois tudo isso lhes diz respeito. Assuma, porém, a responsabilidade do que lhe com­pete, por ofício, quando tiver decidido com precisão aquilo que, após diligente exame, lhe parece ser a vontade de Deus.

98.               O Abade, para suscitar a unidade, rejeite tudo o que tende a separá-lo de seus monges; leve a vida regular com os irmãos, apre­sentando-se como modelo de fidelidade e zelo; restrinja ao mínimo possível os assuntos que exigem sua ausência do mosteiro. Mesmo sendo Abade, ele permanece monge e irmão entre os irmãos e, assim, como centro de unidade e caridade, entregue-se totalmente aos irmãos no amor do Cristo.

RB 2,23-29

13 jan 14 mai 13 set

 
  P

ortanto, em sua doutrina deve sempre o Abade observar aquela fórmula do Apóstolo: "Repreende, exorta, admoesta", isto é, temperando as ocasiões umas com as ou­tras, os carinhos com os rigores, mostre a severidade de um mestre e o pio afeto de um pai, quer dizer: aos indisciplinados e inquietos deve repreender mais duramente, mas aos obedientes, mansos e pacientes, deve exortar a que progridam ainda mais, e quanto aos ne­gligentes e desdenhosos, advertimos que os repreenda e castigue. Não dissimule as faltas dos culpados, mas logo que começarem a brotar ampute-as pela raiz, como lhe for possível, lembrando-se da desgraça de Heli, sacerdote de Silo. Aos mais honestos e de ânimo compreensível, cen­sure por palavras em primeira e segunda advertência; porém aos improbos, duros e soberbos ou desobedientes reprima com varadas ou outro castigo corporal, desde o início da falta, sabendo que está escrito: "O estulto não se corrige com palavras". E mais: "Bate no teu filho com a vara e livrarás a sua alma da morte".

Declaratio art. 115

115. O Abade Presidente governa a Congregação de acordo com o Capítulo da Congregação e é o sinal do amor fraterno pelo qual os mos­teiros se unem. Ele trabalha para que nas famílias monásticas a vida religiosa floresça convenientemente, firme-se e se desenvolva, conforme as Constituições da Congregação.

Cabe-lhe fomentar as relações entre os mosteiros para o bem de toda a Congregação. Convém que, neste ponto, os Abades e os monges de to­dos os mosteiros ajudem o Abade Presidente, alimentando as relações fra­ternas entre si, recebendo-se uns aos outros de bom grado, participan­do dos esforços, encontrando-se para conferências sobre assuntos espiri­tuais ou administrativos e procurando conhecer-se e estimar-se mutuamente.

RB 2,30-32

14 jan 15 mai 14 set

 
D

eve sempre lembrar-se o Abade daquilo que é; lembrar-se de como é chamado, e saber que daquele a quem mais se confia mais se exige. E saiba que coisa difícil e árdua recebeu: reger as almas e servir aos temperamentos de muitos; a este com carinho, àquele, porém, com repreensões, a outro com persuasões segundo a maneira de ser ou a inteligência de cada um, de tal modo se conforme e se adapte a todos, que não somente não venha a sofrer perdas no rebanho que lhe foi confiado, mas também se alegre com o aumento da boa grei.

RB 2,33-40

15 jan 16 mai 15 set

 
A

ntes de tudo, que não trate com mais solicitude das coisas transitórias, terrenas e caducas, negligenciando ou tendo em pouco a salvação das almas que lhe fo­ram confiadas, mas pense sempre que recebeu almas a dirigir, das quais deverá também prestar contas. E para que não venha, porventura, a alegar falta de recursos, lembrar-se-á do que esta escrito: "Bus­cai primeiro reino de Deus e sua justiça, e todas as coisas vos serão dadas por acréscimo"; e ainda: "Nada falta aos que O temem". E saiba que quem recebeu almas a dirigir, deve preparar-se para prestar contas. Sai­ba como certo que de todo o número de irmãos que tiver possuído sob seu cuidado, no dia do juízo, deverá prestar contas ao Senhor das al­mas de todos eles, e mais, sem dúvida também da sua própria alma. E as­sim, temendo sempre a futura apreciação do pastor acerca das ovelhas que lhe foram confiadas enquanto cuida das contas alheias, torna-se so­lí­cito para com a suas próprias, e enquanto com suas exortações sub­ministra a emenda aos outros, consegue ele próprio emendar-se de seu vícios.

Declaratio art. 123

123. O Abade Geral, eleito pelo Capítulo Geral, governa a Ordem se­gundo orientação desse mesmo CapítuIo Geral e as normas das Constituições e promove os fins de nossa união.

O Abade Geral é:

a) Promotor e o centro da unidade fraterna na Ordem, em primeiro lugar porque, esforçando-se por ser justo e imparcial, acha-se em condições de servir aos múltiplos costumes e de promover e representar todas as fa­mílias da Ordem. Ele considera como seus os valores e os ideais da Ordem, tanto no seu modo pessoal de agir como nos atos oficiais. Sente com a Ordem, tal como esta existe concretamente em nossas comu­nidades, percebendo, de coração aberto, suas preocupações, tendências e opiniões.

b) O promotor e coordenador dos projetos e resoluções comuns que excedem as forças particulares de cada comunidade e congregação e são úteis a todos ou a muitos. Ele mesmo tem parte ativa na formação e ela­boração de tais projetos, estimula as iniciativas dos outros e colabora para a sua execução por palavras e atos.

c) Usando de sua autoridade, sancionada pelas Constituições, é, no serviço de todos, um pai e ainda um irmão entre irmãos, segundo o espí­rito do Cristo, desejando antes servir do que presidir. Nas cartas, ser­mões ou em outras comunicações à Ordem use o estilo de um irmão, de um condiscípulo e conservo do Senhor, que procura, juntamente com os outros irmãos, a verdade e a vontade de Deus. Possuindo da convicção e da clarividência dos valores da vocação religiosa, esforce-se por abrir aos monges e às comunidades, novas perspectivas e possibilidades e in­fundir-lhes a confiança no futuro.

Capítulo 3 Da convocação dos irmãos a conselho

RB 3,1-6

16 jan 17 mai 16 set

 
  T

odas as vezes que deverem ser feitas coisas im­portantes no mosteiro, convoque o Abade toda a co­mu­nidade e diga ele próprio de que se trata. Ouvindo o conselho dos irmãos, considere consigo mesmo e faça o que julgar mais útil. Dissemos que todos fossem chamados a conselho por­que muitas vezes o Senhor revela ao mais moço o que é melhor. Dêem pois os irmãos o seu conselho com toda a submissão da humil­dade e não ousem defender arrogantemente o seu parecer, e que a solu­ção dependa antes do arbítrio do Abade, e todos lhe obedeçam no que ele tiver julgado ser mais salutar; mas, assim como convém aos discí­pulos obedecer ao mestre, também a este convém dispor todas as coisas com prudência e justiça.

RB 3,7-13

17 jan 18 mai 17 set

 
  E

m tudo, pois, sigam todos a Regra como mestra, nem dela se desvie alguém temerariamente. Ninguém, no mosteiro, siga a vontade do próprio coração, nem ouse discutir insolentemente com seu abade, nem mesmo dis­cutir com ele fora do mosteiro. E, se ousar fazê-lo, seja submetido à disci­plina regular. No entanto, que o próprio abade faça tudo com temor de Deus e observância da Regra, cônscio de que, sem dúvida alguma, de todos os seus juízos deverá dar contas a Deus, justíssimo juiz. Se, po­rém, for preciso fazer alguma coisa de menor importância dentre os negócios do mosteiro, use o Abade somente do conselho dos mais ve­lhos, conforme o que está escrito: "Faze tudo com conselho e depois de feito não te arrependerás".

Declaratio arts. 102-107

102. Havendo assuntos de maior importância a tratar no mosteiro, prin­cipalmente nos casos previstos nas Constituições das congregações ou no direito comum, o Capítulo conventual tem atuação no governo da ca­sa. Aí, por um ato verdadeiramente colegial, elege-se o Abade e cole­gialmente se tomam as decisões relativas às atividades do mosteiro, à admissão e formação dos novos elementos e à administração dos bens.

103. Mas a participação do Capítulo não deve restringir-se unicamente aos casos em que, conforme o direito comum ou particular, deve dar seus votos consultivos ou deliberativos; os monges devem mais freqüen­temente reunir-se para trocar idéias, para um verdadeiro diálogo frater­no, a fim de que a sua colaboração e o seu zelo pelo bem do mosteiro sejam eficazmente aproveitados[13]. O Capítulo Conventual deve ser tam­bém o centro de informações dos assuntos do mosteiro, da congregação e da Ordem, e aí ainda os oficiais exponham o que tiverem realizado e os peritos tratem de assuntos da atualidade.

104. Haja uma seleção nos assuntos a serem tratados em capítulo, feita com a ajuda do Conselho, que assessora mais de perto o Abade, to­mando-se em consideração os desejos e questões propostos por qualquer um dos monges; sejam os assuntos notificados aos capitulares com antecedência e no devido modo, para que eles tenham tempo de estudar e de refletir. Quando for oportuno, as respostas sejam dadas por escrito. A obrigação do segredo seja restrita aos assuntos que exigem absoluta discrição, mas os monges, com os de fora, guardem sempre a máxima discrição sobre os assuntos da família monástica.

105. Providenciem-se em cada comunidade meios adequados para, habitualmente, sem demora e com exatidão, se manterem os monges que residem fora do mosteiro, ao par dos assuntos da casa, da congregação e da Ordem.

106. O Conselho do Abade, mais restrito pelo número de seus membros que, geralmente, são chamados "seniores"[14], deve ser convocado para tratar de assuntos de necessidade ou utilidade da família monástica e tam­bém dos assuntos que devem ser mantidos sob segredo. A metade dos membros do Conselho deve ser eleita pela comunidade e a outra metade nomeada pelo Abade.

107. Pondo em prática estes princípios e conselhos, as comunidades po­derão adquirir novo vigor. Serão verdadeiras famílias unidas pela cari­dade[15] na casa de Deus, verdadeiras legiões de irmãos bem disciplinados e alegres por uma sólida união[16], onde cada um, desempenhando o seu ofício, a todos serve e é por todos apoiado.

Capítulo 4 Quais são os instrumentos das boas obras

RB 4,1-21

18 jan 19 mai 18 set

 
P

rimeiramente, amar ao Senhor Deus de todo o coração, com toda a alma, com todas as forças.

Depois, amar ao próximo como a si mesmo.

Em seguida, não matar.

Não cometer adultério.

Não furtar.

Não cobiçar.

Não levantar falso testemunho.

Honrar todos os homens.

E não fazer a outrem o que não quer que lhe seja feito.

Abnegar-se a si mesmo para seguir o Cristo.

Castigar o corpo.

Não abraçar as delícias.

Amar o jejum.

Reconfortar os pobres.

Vestir os nus.

Visitar os enfermos.

Sepultar os mortos.

Socorrer na tribulação.

Consolar o que sofre.

Fazer-se alheio às coisas do mundo.

Nada antepor ao amor de Cristo.

RB 4,22-43

19 jan 20 mai 19 set

 
N

ão satisfazer a ira.

Não reservar tempo para a cólera.

Não conservar a falsidade no coração.

Não conceder paz simulada.

Não se afastar da caridade.

Não jurar para não vir a perjurar.

Proferir a verdade de coração e de boca.

Não retribuir o mal com o mal.

Não fazer injustiça, mas suportar pacientemente as que lhe são feitas.

Amar os inimigos.

Não retribuir com maldição aos que o amaldiçoam, mas antes abençoá-los. Suportar perseguição pela justiça.

Não ser soberbo.

Não ser dado ao vinho.

Não ser guloso.

Não ser apegado ao sono.

Não ser preguiçoso.

Não ser murmurador.

Não ser detrator.

Colocar toda a esperança em Deus.

O que achar de bem em si, atribuí-lo a Deus e não a si mesmo.

Mas, quanto ao mal, saber que é sempre obra sua e a si mesmo atribuí-lo.

RB 4,44-62

20 jan 21 mai 20 set

 
T

emer o dia do juízo.

Ter pavor do inferno.

Desejar a vida eterna com toda a cobiça espiritual.

Ter diariamente diante dos olhos a morte a surpreendê-lo.

Vigiar a toda hora os atos de sua vida.

Saber como certo que Deus o vê em todo lugar.

Quebrar imediatamente de encontro ao Cristo os maus pensamentos que lhe advêm ao coração e revelá-los a um conselheiro espiritual.

Guardar sua boca da palavra má ou perversa.

Não gostar de falar muito.

Não falar palavras vãs ou que só sirvam para provocar riso.

Não gostar do riso excessivo ou ruidoso.

Ouvir de boa vontade as santas leituras.

Dar-se freqüentemente à oração.

Confessar todos os dias a Deus na oração, com lágrimas e gemidos, as faltas passadas e daí por diante emendar-se delas.

Não satisfazer os desejos da carne.

Odiar a própria vontade.

Obedecer em tudo às ordens do Abade, mesmo que este, o que não aconteça, proceda de outra forma, lembrando-se do preceito do Senhor: "Fazei o que dizem, mas não o que fazem".

Não querer ser tido como santo antes que o seja, mas primeiramente sê-lo para que como tal o tenham com mais fundamento.

RB 4,63-78

21 jan 22 mai 21 set

 
P

ôr em prática diariamente os preceitos de Deus.

Amar a castidade.

Não odiar a ninguém. Não ter ciúmes.

Não exercer a inveja.

Não amar a rixa.

Fugir da vanglória.

Venerar os mais velhos.

Amar os mais moços.

Orar, no amor de Cristo, pelos inimigos.

Voltar à paz, antes do pôr-do-sol, com aqueles com quem teve desavença.

E nunca desesperar da misericórdia de Deus.

Eis aí os instrumentos da arte espiritual: se forem postos em ação por nós, dia e noite, sem cessar, e devolvidos no dia do juízo, seremos re­com­pensados pelo Senhor com aquele prêmio que Ele mesmo prometeu: "O que olhos não viram nem ouvidos ouviram preparou Deus para aque­les que o amam". São, porém, os claustros do mosteiro e a estabilidade na comunidade a oficina onde executaremos diligentemente tudo isso.

Declaratio arts. 46-47

46. Deus nos chama não apenas ao fim acima exposto, mas quer que em­preguemos os meios que Ele nos preparou, tais como os conselhos evan­gélicos, a vida comunitária Cisterciense, a vida de oração, o amor à cruz e o serviço dos homens, pelo nosso trabalho.

47. Para seguirmos, de modo especial a Cristo-Mestre como discípulos, abra­çamos os conselhos evangélicos, a fim de a Ele sempre mais nos unir­mos e mais depressa e cada vez mais intimamente segui-lo pelo caminho da conversão monástica.

Capítulo 5 Da obediência

RB 5,1-13

22 jan 23 mai 22 set

 
  O

 primeiro grau da humildade é a obediência sem de­mora. É peculiar àqueles que estimam nada haver mais caro que o Cristo; por causa do santo serviço que professaram, por causa do medo do inferno ou por causa da glória da vida eterna, desconhecem o que seja demorar na exe­cução de alguma coisa logo que ordenada pelo superior, como sendo por Deus ordenada. Deles diz o Senhor: "Logo ao ouvir-me, obedeceu-me". E do mesmo modo diz aos doutores: "Quem vos ouve a mim ouve".

Pois são esses mesmos que, deixando imediatamente as coisas que lhes di­zem respeito e abandonando a própria vontade, desocupando logo as mãos e deixando inacabado o que faziam, seguem com seus atos, tendo os passos já dispostos para a obediência, a voz de quem ordena. E, como que num só momento, ambas as coisas - a ordem recém-dada do mestre e a perfeita obediência do discípulo - são realizadas simultânea e ra­pidamente, na prontidão do temor de Deus. Apodera-se deles o desejo de caminhar para a vida eterna; por isso, lançam-se como que de assalto ao caminho estreito do qual diz o Senhor: "Estreito é o caminho que con­duz à vida", e assim, não tendo, como norma de vida a própria vontade, nem obedecendo aos próprios desejos e prazeres, mas caminhando sob o juízo e domínio de outro e vivendo em comunidade, desejam que um Abade lhes presida. Imitam, sem dúvida, aquela máxima do Senhor que diz: "Não vim fazer minha vontade, mas a d’Aquele que me enviou".

RB 5,14-19

23 jan 24 mai 23 set

 
  M

as essa mesma obediência somente será digna da aceitação de Deus e doce aos homens, se o que é ordenado for executado sem tremor, sem delongas, não mornamente, não com murmuração, nem com resposta de quem não quer. Porque a obediência prestada aos superiores é tributada a Deus. Ele próprio disse: "Quem vos ouve, a mim me ouve". E convém que seja prestada de boa vontade pelos discípulos, porque "Deus ama aquele que dá com alegria". Pois, se o discípulo obedecer de má vontade e se murmurar, mesmo que não com a boca, mas só no coração, ainda que cumpra a ordem, não será mais o seu ato aceito por Deus que vê seu coração a murmurar; e por tal ação não consegue graça alguma, e, ainda mais, incorre no castigo dos murmuradores se não se emendar pela satisfação.

Declaratio arts. 52-53

52. A obediência significa, antes de tudo, ter o coração aberto para receber as inspirações do Espírito Santo, porque Ele sopra onde quer e nos torna conhecida a vontade de Deus por muitos modos. Como o ali­mento de Cristo era fazer a vontade dAquele que o enviara, assu­mindo a forma de servo e fazendo-se obediente até a morte de cruz[17], assim também nós, que queremos seguir a Cristo mais de perto, devemos procurar conhecer a vontade do Pai para cumprí-Ia prontamente.

É a Igreja que, freqüentemente, nos transmite a vontade de Deus, na doutrina e exortações dos Sumos Pontífices, da Santa Sé, dos bispos e aba­des, que devem não apenas orientar a nossa vida exterior, mas também plasmar a nossa espiritualidade.

53. Os monges, desejando em espírito de fé e de amor, fazer a vontade de Deus, querem ter o abade, que ocupa o lugar do Cristo[18], como seu Pai espiritual e humildemente lhe obedecer conforme a Regra e as Constituições. Colocam seus dotes de inteligência e de vontade na exe­cução das ordens e na realização dos trabalhos que lhe são confiados, certos de, assim, colaborarem para a edificação do Corpo de Cristo, segundo o plano de Deus. A obediência religiosa, desse modo, longe de diminuir a dignidade da pessoa humana, a leva à maturidade, pela liberdade dos filhos de Deus.

Capítulo 6 Do silêncio

RB 6,1-8

24 jan 25 mai 24 set

 
  F

açamos o que diz o profeta: "Eu disse, guardarei os meus caminhos para que não peque pela língua: pus uma guarda à minha boca: emudeci, humilhei-me e calei as coisas boas". Aqui mostra o Profeta que, se, às vezes, se devem calar mesmo as boas conversas, por causa do silêncio, quanto mais não deverão ser suprimidas as más palavras, por causa do castigo do pecado? Por isso, ainda que se trate de conversas boas, santas e próprias a edificar, raramente seja concedida aos discípulos perfeitos licença de falar, por causa da gravidade do silêncio, pois está escrito: "Falando muito não foges ao pecado", e em outro lugar: "a morte e a vida estão em poder da língua". Com efeito, falar e ensinar compete ao mestre; ao discípulo convém calar e ouvir.

            Por isso, se é preciso pedir alguma coisa ao superior, que se peça com toda a humildade e submissão da reverência. Já quanto às brin­cadeiras, palavras ociosas e que provocam riso, condenamo-las em todos os lugares a uma eterna clausura, para tais palavras não permitimos ao discípulo abrir a boca.

Declaratio arts. 48-49

48. A castidade voluntária, escolhida por causa do Reino de Deus, não é mera renúncia ao matrimônio[19] e às alegrias da família natural, mas uma libertação para que, com todas as nossas forças físicas e psíquicas, nos entreguemos às coisas de Deus e da Igreja. Pela profissão religiosa, queremos, de um modo mais direto e íntimo, dar testemunho da expectativa cristã do século futuro, onde não há matrimônio[20]. Por isso, a castidade é um notável sinal escatológico da nossa vida.

49. Essa consagração total a Deus deve fornecer o alicerce para a edificação da família monástica. Nessa família de Deus, a caridade comum e a mesma vocação dão origem à dileção fraterna e ao auxílio mú­tuo de seus membros. Por um lado, devemos, assim, carregar fiel­mente os fardos uns dos outros[21], e, por outro lado, todos participarmos das graças e virtudes nos quais cada um se distingue. Abraçamos, então, de um modo esplêndido, o caminho comunitário da salvação que Deus mes­mo abriu na Igreja para os homens. Deus abre então os nossos co­rações para que possamos amar com sincera e operosa caridade todos os que nos cercam, em primeiro lugar nossos irmãos e irmãs no mosteiro.

Capítulo 7 Da humildade

RB 7,1-4

25 jan  26 mai  25 set

 
  I

rmãos, a Escritura divina nos clama dizendo: "Todo aquele que se exalta será humilhado e todo aquele que se humilha será exaltado". Indica-nos com isso que toda elevação é um gênero da soberba, da qual o Profeta mostra precaver-se quando diz: "Senhor, o meu coração não se exaltou, nem foram altivos meus olhos; não andei nas grandezas, nem em maravilhas acima de mim. Mas, que seria de mim se não me tivesse feito humilde, se tivesse exaltado minha alma? Como aquele que é desmamado de sua mãe, assim retribuirias a minha alma.

RB 7,5-9

26 jan 26 mai 26 set

 
  S

e, portanto, irmãos, queremos atingir o cume da suma humildade e se queremos chegar rapidamente àquela exal­tação celeste para a qual se sobe pela humildade da vida presente, deve ser erguida, pela ascensão de nossos atos, aquela escada que apareceu em sonho a Jacó, na qual lhe eram mos­trados anjos que subiam e desciam. Essa descida e subida, sem dúvida, outra coisa não significa, para nós, senão que pela exaltação se des­ce e pela humildade se sobe. Essa escada ereta é a nossa vida no mundo, a qual é elevada ao céu pelo Senhor, se nosso coração se hu­milha. Quanto aos lados da escada, dizemos que são o nosso corpo e alma, e nesses lados a vocação divina inseriu, para serem galgados, os diversos graus da humildade e da disciplina.

Declaratio art. 65

65. A vida do monge deve ser uma imitação do Cristo humilde. Since­ramente arrependidos de nossos pecados, cônscios de nossas limitações e, ao mesmo tempo, apoiados na misericórdia de Deus, devemos pro­curar a Sua glória e não a nossa. Nesse espírito de humildade, devemos aceitar, com serenidade, as tribulações e privações, e contentarmo-nos com nossos modestos meios de vida e nossos módicos resultados.

A vida monástica só pode existir sob o sinal da cruz, pois, seguindo a cari­dade de Cristo, que ninguém pode superar, entramos no caminho da renúncia e mortificamos o nosso corpo para servirmos o Deus vivo. Como o Cristo convidou seus discípulos a carregar a cruz, também a isso nos convida diariamente.

RB 7,10-18

27 jan  28 mai 27 set

 
  A

ssim, o primeiro grau da humildade consiste em que, pondo sempre o monge diante dos olhos o temor de Deus, evite, absolutamente, qualquer esquecimento, e esteja, ao contrário, sempre lembrado de tudo o que Deus ordenou, revolva sempre, no espírito, não só que o inferno queima, por causa de seus pecados, os que desprezam a Deus, mas também que a vida eterna está preparada para os que temem a Deus; e, defendendo-se a todo tempo dos pecados e vícios, isto é, dos pecados do pensamento, da língua, das mãos, dos pés e da vontade própria, como também dos desejos da carne, considere-se o homem visto do céu, a todo momento, por Deus, e suas ações vistas em toda parte pelo olhar da divindade e anunciadas a todo instante pelos anjos. Mostra-nos isso o Profeta quan­do afirma estar Deus sempre presente aos nossos pensamentos: "Deus que perscruta os corações e os rins". E também: "Deus conhece os pen­samentos dos homens". E ainda: "De longe percebestes os meus pensa­mentos" e "o pensamento do homem vos será confessado". Portanto, pa­ra que esteja vigilante quanto aos seus pensamentos maus, diga sempre, em seu coração, o irmão empenhado em seu próprio bem: "se me preservar da minha iniqüidade, serei, então, imaculado diante d’Ele".

RB 7,19-23

28 jan 29 mai 28 set

 
  A

ssim, é-nos proibido fazer a própria vontade, visto que nos diz a Escritura: "Afasta-te das tuas próprias vontades". E, também, porque rogamos a Deus na oração que se faça em nós a sua vontade.

            Aprendemos, pois, com razão, a não fazer a própria vontade, enquanto nos acautelamos com aquilo que diz a Escritura: "Há camin­hos considerados retos pelos homens cujo fim mergulha até o fundo do inferno", e enquanto, também, nos apavoramos com o que foi dito dos negligentes: "Corromperam-se e tornaram-se abomináveis nos seus pra­zeres". Por isso, quando nos achamos diante dos desejos da carne, creiamos que Deus está sempre presente junto a nós, pois disse o Profeta ao Senhor: "Diante de vós está todo o meu desejo".

RB 7,24-30

29 jan 30 mai 29 set

 
  D

evemos, portanto, acautelar-nos contra o mau desejo, porque a morte foi colocada junto à porta do prazer. Sobre isso a Escritura preceitua dizendo: "Não andes atrás de tuas concupiscências". Logo, se os olhos do Senhor "observam os bons e os maus", e "o Senhor sempre olha do céu os filhos dos homens para ver se há algum inteligente ou que procura a Deus" e se, pelos anjos que nos foram designados, todas as coisas que fa­zemos são, cotidianamente, dia e noite, anunciadas ao Senhor, de­vemos ter cuidado, irmãos, a toda hora, como diz o Profeta no salmo, para que não aconteça que Deus nos veja no momento em que caímos no mal, tornando-nos inúteis, e para que, vindo a poupar-nos nessa ocasião porque é Bom e espera sempre que nos tornemos melhores, não venha a dizer-nos no futuro: "Fizeste isto e calei-me".

RB 7,31-33

30 jan 31 mai 30 set

 
  O

 segundo grau da humildade consiste em que, não amando a própria vontade, não se deleite o monge em realizar os seus desejos, mas imite nas ações aquela palavra do Senhor: "Não vim fazer a minha vontade, mas a d’Aquele que me enviou". Do mesmo modo, diz a Escritura: "O prazer traz consigo a pena e a necessidade gera a coroa".

Declaratio art. 66

66. A participação à cruz de Cristo a que somos chamados, consiste freqüentemente no seguinte :

- humilhar-se, fugir da vanglória e ambições egoístas;

- realizar bem o trabalho de todos os dias, que muitas vezes exigem de nós tantos sacrifícios que podem, merecidamente, ser comparados com as austeridades da vida monástica antiga;

- ter paciência, pois ela nos permite suportar com bom espírito, as nossas enfermidades do corpo e da alma, as fraquezas de nossas facul­dades e o peso da vida comum;

- amar os nossos inimigos, os que nos perseguem e caluniam;

- aceitar a velhice e a morte, manifestando assim, o mais possível, a nossa fé e esperança na vida eterna.

RB 7,34

31 jan 1 jun  1 out

 
  O

 terceiro grau da humildade consiste em que, por amor de Deus, se submeta o monge, com inteira obediência ao superior, imitando o Senhor, de quem disse o Apóstolo: "Fez-se obediente até a morte".

Declaratio art. 67

67. Além disso, como no batismo prometemos resistir e renunciar a Satanás e a todas as suas pompas, queremos, na vida monástica, fugir do mundo enquanto este se acha sob o poder do demônio, renunciar aos desejos dos olhos, à concupiscência da carne e à soberba da vida. Essa fuga do mundo consiste primeiramente na renúncia interior ao espírito do século, que não tem esperança alguma de algo após a morte e nada valoriza mais do que os prazeres do corpo e do espírito.

A separação exterior do "mundo" - que se faz em graus diversos e de di­ver­sos modos em nossas comunidades - é um sinal e meio dessa renúncia interior.

RB 7,35-43

1 fev 2 jun 2 out

 
  O

 quarto grau da humildade consiste em que, no exercício dessa mesma obediência abrace o monge a paciência, de ânimo sereno, nas coisas duras e adver­sas, ainda mesmo que se lhe tenham dirigido injúrias, e, suportando tudo, não se entregue nem se vá embora, pois diz a Escritura: "Aquele que perseverar até o fim será salvo". E também: "Que se revigore o teu coração e suporta o Senhor". E a fim de mostrar que o que é fiel deve suportar todas as coisas, mesmo as adversas, pelo Senhor, diz a Escritura, na pessoa dos que sofrem: "Por vós, somos en­tre­gues todos os dias à morte; somos considerados como ovelhas a serem sacrificadas". Seguros na esperança da retribuição divina, pros­seguem alegres dizendo: "Mas superamos tudo por causa daquele que nos amou". Também, em outro lugar, diz a Escritura: "Ó Deus, pro­vastes-nos, experimentastes-nos no fogo, como no fogo é provada a prata: induzistes-nos a cair no laço, impusestes tribulações sobre os nos­sos ombros". E para mostrar que devemos estar submetidos a um superior, continua: "Impusestes homens sobre nossas cabeças". Cum­prindo, além disso, com paciência o preceito do Senhor nas adversi­dades e injúrias, se lhes batem numa face, oferecem a outra; a quem lhes toma a túnica cedem também o manto; obrigados a uma milha, andam duas; suportam, como Paulo Apóstolo, os falsos irmãos e abençoam aqueles que os amaldiçoam.

Declaratio art. 68

68. O amor à cruz e nossa decidida oposição ao espírito deste mundo não nos deve tornar indiferentes aos verdadeiros valores profanos, que de­vem ser postos a serviço do reino de Deus. Os valores técnicos, eco­nô­micos, sociais e culturais de modo algum nos são alheios, pois o seu cultivo tanto enriquece nossa vida como nos integra na comunidade da família humana.

RB 7,44-48

2 fev  3 jun  3 out

 
  O

 quinto grau da humildade consiste em não esconder o monge ao seu Abade todos os maus pensamentos que lhe vêm ao coração, ou o que de mal tenha come­tido ocultamente, mas em lho revelar humildemente, exortando-nos a este respeito a Escritura quando diz: "Revela ao Senhor o teu caminho e espera nele". E quando diz ainda: "Confessai ao Senhor porque ele é bom, porque sua misericórdia é eterna". Do mesmo modo o Profeta: "Dei a conhecer a Vós a minha falta e não escondi as minhas injustiças. Disse: acusar-me-ei de minhas injustiças diante do Senhor, e perdoastes a maldade de meu coração".

Declaratio art. 116

116. A Carta da Caridade estabelecia a visita anual a ser feita pelo Aba­de do mosteiro fundador ou por seu delegado, conforme a lei de filia­ção. Seu fim era afervorar e, quando necessário, corrigir fraternalmente na caridade. A visita anual era o eixo da estrutura jurídica da Ordem, muito apreciada por todos, mesmo fora da Ordem, e, sem dúvida, muito contribuiu para consolidar e promover a vida dos mosteiros.

O visitador, terminadas as consultas aos monges, pode, freqüentemente, dar ótimos conselhos ao Abade, despertar sua atenção para assuntos e pro­blemas que talvez este não tenha percebido ou para outros cuja con­-ca­tenação e aspectos pessoais ele não veja com clareza. Caso o visitador per­ceba que no mosteiro são negligenciados os preceitos de nossa Or­dem, esforce-se por corrigir com caridade, de acordo com o Abade Iocal.

A lei da filiação ainda vigora hoje em alguns lugares. Em lugar do anti­go parentesco, quase natural, que a filiação representava, existe hoje, na maioria dos casos, a união dos mosteiros em Congregações, onde, geralmente, o visitador ordinário é o Abade Presidente da Congregação, exceto nos casos onde vigora a lei da filiação e onde as Constituições da respectiva Congregação regulam o assunto de outro modo.

RB 7,49-50

3 fev 4 jun 4 out

 
  O

 sexto grau da humildade consiste em que esteja o monge contente com o que há de mais vil e com a situação mais extrema e, em tudo que lhe seja orde­nado fazer, se considere mau e indigno operário, di­zen­do-se a si mesmo com o Profeta: "Fui reduzido a nada e não o sabia; tornei-me como um animal diante de Vós, porém estou sempre convosco".

Declaratio art. 117

117. O fim das visitas ainda hoje é o mesmo de outrora, mesmo se o modo de realizá-las deva ser adaptado às novas situações. Sejam tais visitas realizadas freqüentemente, também hoje em dia, mesmo que não sejam canônicas, para atender a tempo as necessidades dos mosteiros. O visitador, evidentemente, não é um legislador, nem um "reformador", mas deve levar todos a um exame de consciência. A solução dos pro­blemas dificilmente se faz por imposições, mas só por uma convicção interior. E isto exige muito, tanto do visitador como dos que são visi­tados. O visitador, cujo múnus é, antes de tudo, um serviço de caridade, esforce-se primeiramente por conhecer o estado psicológico da comu­nidade. Deverá também respeitar a legítima autonomia do mosteiro e os seus próprios fins, legitimamente aprovados, para que a visita traga ao mosteiro um verdadeiro incremento.

Os monges visitados devem abrir-se, com humildade e sinceridade, pro­cu­rando verdadeiramente o bem das almas e o progresso da comunidade no serviço de Deus. Compreendam também os vários limites da visita, is­to é, o legítimo âmbito dos assuntos dentro dos quais o visitador pode a­gir e as reais possibilidades de sua intervenção. Freqüentemente a visi­ta não dá resultados por causa da inconsiderada e infundada esperança de muitos membros da comunidade, que, pedindo ao visitador coisas irrealizáveis, logo se declaram decepcionados.

RB 7,51-54

4 fev  5 jun  5 out

 
  O

 sétimo grau da humildade consiste em que o monge se diga inferior e mais vil que todos, não só com a boca, mas que também o creia no íntimo pulsar do coração, humilhando-se e dizendo com o Profeta: "Eu, porém, sou um verme e não um homem, a vergonha dos homens e a abjeção do povo: exaltei-me, mas, depois fui humilhado e confundido". E ainda: "É bom para mim que me tenhais humilhado, para que aprenda os vossos mandamentos".

RB 7,55

5 fev 6 jun 6 out

 
  O

 oitavo grau da humildade consiste em que só faça o monge o que lhe exortam a Regra comum do mosteiro e os exemplos de seus maiores.

RB 7,56-58

6 fev 7 jun 7 out

 
  O

 nono grau da humildade consiste em que o monge negue o falar a sua língua, entregando-se ao silêncio; nada diga, até que seja interrogado, pois mostra a Escritura que "no muito falar não se foge ao pecado" e que "o homem que fala muito não se encaminhará bem sobre a terra".

RB 7,59

7 fev 8 jun 8 out

 
  O

 décimo grau da humildade consiste em que não seja o monge fácil e pronto ao riso, porque está escrito: "O estulto eleva sua voz quando ri".

RB 7,60-61

8 fev 9 jun 9 out

 
  O

 undécimo grau da humildade consiste em, quando falar, fazê-lo o monge suavemente e sem riso, humildemente e com gravidade, com poucas e razoáveis palavras e não em alta voz, conforme o que está escrito: "O sábio manifesta-se com poucas palavras".

RB 7,62-70

9 fev  10 jun 10 out

 
  O

 duodécimo grau da humildade consiste em que não só no coração tenha o monge a humildade, mas a dei­xe transparecer sempre, no próprio corpo, aos que o vêem, isto é, que no ofício divino, no oratório, no mos­teiro, na horta, quando em caminho, no campo ou onde quer que es­te­ja, sentado, andando ou em pé, tenha sempre a cabeça inclinada, os olhos fixos no chão, considerando-se a cada momento culpado de seus pe­cados, tenha-se já como presente diante do tremendo juízo de Deus, dizendo-se a si mesmo, no coração, aquilo que aquele publicano do Evan­gelho disse, com os olhos pregados no chão: "Senhor, não sou digno, eu pecador, de levantar os olhos aos céus". E ainda, com o Pro­feta: "Estou completamente curvado e humilhado".

            Tendo, por conseguinte, subido todos esses degraus da humildade, o monge atingirá logo, aquela caridade de Deus, que, quan­do perfeita, afasta o temor; por meio dela tudo o que observava antes não sem medo começará a realizar sem nenhum labor, como que natu­ral­mente, pelo costume, não mais por temor do inferno, mas por amor de Cristo, pelo próprio costume bom e pela deleitação das virtudes.

            Eis o que, no seu operário, já purificado dos vícios e pecados, se dignará o Senhor manifestar por meio do Espírito Santo.

Declaratio art. 10

10. A fonte mais importante e mais rica de nossa vida é a ação e a inspiração do Espírito Santo em nós. Cremos firmemente que o Espírito Santo opera em nós e nos inflama o coração para melhor conhecermos a vontade de Deus e mais prontamente segui-Ia. Nada nos é tão necessário como visualizar com lealdade, sob a luz do Espírito Santo, a nossa vida e a nossa vocação e atender solicitamente as suas inspirações. Sua ope­ração, embora misteriosa, manifesta-se principalmente na fraterna con­cór­dia dos membros de uma comunidade que sinceramente procuram conhecer a vontade de Deus e criar formas adequadas e dignas do serviço de Deus. Uma troca de idéias nobre e aberta, uma sincera deliberação em comum, a cooperação responsável de todos os membros são os meios principais através dos quais se manifestam a ação e a ins­piração do Espírito Santo.

Capítulo 8 Dos Ofícios Divinos durante a noite

RB 8,1-4

10 fev 11 jun 11 out

 
  E

m tempo de inverno, isto é, de primeiro de novembro até a Páscoa, em consideração ao que é razoável, devem os monges levantar-se à oitava hora da noite de modo que durmam um pouco mais da metade da noite e se levantem tendo já feita a digestão. O tempo que resta depois das Vigílias seja empregado na preparação de algum trecho do saltério ou das lições, por parte dos irmãos que disto necessitarem. Da Páscoa, po­rém, até o referido dia primeiro de novembro, seja regulada a hora de tal maneira que as Matinas que devem ser celebradas quando começa a clarear, venham em seguida ao ofício das Vigílias, depois de brevíssimo intervalo, durante o qual os irmãos saem para as necessidades naturais.

Declaratio arts. 18-21

18. Nossa Ordem - como toda pessoa física e moral - conserva em si o seu passado, carrega a hereditariedade e o peso, não só de sua história, nas origens de Cister, mas também da história de todo o monaquismo, cujas raízes remontam aos primeiros séculos do cristianismo. Será, por isso, útil, recordar brevemente as principais etapas da história do monaquismo e a importância de cada uma delas[22].

19. As formas primitivas da vida monástica existiam desde os primeiros tempos da Igreja (confessores e virgens, a cuja vida alguns dão o nome de "monaquismo doméstico"). No século lII, além da citada forma, aparecem os anacoretas e cenobitas em toda a Igreja e, desde o século IV foram escritas regras para estatuir a vida das novas instituições mo­nás­ticas e para transmitir as experiências dos "Pais espirituais". Mas o Evangelho permanecia a "Regra não regulamentada", à qual todas as regras se submetiam[23].

20. Entre essas regras, ocupa lugar de destaque a Regra de São Bento. O Sto. Patriarca resume na sua "mínima regra de iniciação"[24] as outras regras - Segundo ela, o mosteiro é a "escola do serviço do Senhor"[25], na qual a comunidade, sob a paternidade do Cristo[26], do qual o Abade faz as vezes, guiada pelo Evangelho, trilha o caminho dos mandamentos de Deus, no serviço fraterno, no equilíbrio harmônico do Opus Dei, da lec­tio divina e do trabalho, além de outros exercícios.

21. A Regra, que diz respeito à ordem das atividades no interior do mosteiro, recebe um certo complemento da "Vida de São Bento", que nos é narrada nos Diálogos de São Gregório. Embora não seja estri­tamente histórica em todos os detalhes[27], revela-nos como segundo a tradição o próprio Patriarca acolhia os que vinham ao mosteiro e como procedia fora do claustro. Com efeito, S.Gregório conta-nos que S.Bento, "com perseve­rante pregação, instruiu na fé a multidão dos que viviam na sua vizinhança" e que também enviou seus monges à aldeia vizinha "para exortar os fiéis"[28] .

Capítulo 9 Quantos salmos devem ser ditos nas Horas noturnas

RB 9,1-10

11 fev 12 jun 12 out

 
  N

o tempo de inverno acima citado, diga-se em primeiro lugar o versículo, repetido três vezes: "Senhor, abrireis os meus lábios e minha boca anunciará vosso louvor", ao qual deve ser acrescentado o salmo terceiro e o "Glória". Depois desse, o salmo nonagésimo quarto, com antífona, ou então cantado. Segue-se o Ambrosiano e depois seis salmos com antífonas. Recitados esses e dito o versículo, o Abade dê a bênção; depois, achando-se todos sentados nos bancos sejam lidas pelos irmãos, um de cada vez, três lições do livro que está sobre a estante. Entre elas cantem-se três responsórios. Dois destes responsórios são ditos sem "Glória", porém, depois da terceira lição, quem está cantando diga o "Glória". Quando esse começar, levantem-se logo todos de seus assentos em honra e reverência à Santíssima Trindade. Leiam-se, nas Vigílias, os livros de autoria divina, tanto do Antigo como do Novo Testamento, e também as exposições que sobre eles fizeram os Padres católicos conhecidos e ortodoxos. A essas três lições com seus responsórios, sigam-se os seis salmos restantes cantados com "Aleluia". Vêm, em seguida, a lição do Apóstolo, que deve ser recitada de cor, o versículo e a súplica da litania, isto é, "Kyrie eleison", e assim terminem as Vigílias noturnas.

Declaratio art. 22

22. A Regra de S. Bento não era a única e não era universalmente observada até o tempo de S.Bento de Aniano (época "regulae mixtae"). Nessa época, no entanto, ela é adotada, paulatinamente, em quase todos os mosteiros do lmpério de Carlos Magno. Com isto, apareceu certa uniformidade de vida no monaquismo ocidental, que pode ser chamado de "Beneditino" .

Os Sínodos dos séculos IX a X, esforçaram-se por distinguir, claramente, os monges dos cônegos regulares, mas com pouco resultado, pois crescia sempre mais o número de monges que recebiam os ordens sacras e assim passavam para o estado clerical, enquanto os cônegos regulares ordenavam a própria vida pelos usos monásticos. Ainda mais; o monaquismo dos séculos X e XI, perdendo a simplicidade da vida monacal, aumentava a duração e os elementos dos atos litúrgicos na vida monástica, de modo que se perdeu inteiramente o equilíbrio entre a oração e o trabalho[29].

Capítulo 10 Como será celebrado no verão o louvor divino

RB 10-1-3

12 fev 13 jun 13 out

 
  D

a Páscoa até primeiro de novembro, mantenha-se, quanto à salmodia, a mesma medida acima determinada; as lições do livro, porém, por causa da brevidade das noites, não são lidas; em lugar dessas três lições, seja recitada de memória uma do Antigo Testamento, seguida de responsório breve, e cumpram-se todas as outras coisas como ficou dito acima, isto é: que nunca se digam nas Vigílias noturnas, menos de doze salmos além do terceiro e do nonagésimo quarto.

Declaratio art. 23

23. No decorrer, no entanto, do século XI, apareceram novos movimentos espirituais entre os monges (e os cônegos), com o fim de retornar à verdadeira pobreza evangélica, ao trabalho manual, à pureza da Regra e às autênticas fontes do monaquismo antigo.

Cister foi fundada para tal fim. Os fundadores do "Novo Mosteiro" restabeleceram o equilíbrio entre a vida litúrgica e o trabalho, embora não tivesse voltado à letra da Regra - do todo. Realmente, várias funções litúrgicas, desconhecidas no tempo de S. Bento, e posteriormente in­tro­duzidas (como, por exemplo, a missa conventual cotidiana) foram con­ser­vadas e mudaram, assim, a ordem do dia. Receberam, além disso, os irmãos conversos, porque diziam ser-lhes impossível, sem eles , "obser­var os preceitos da Regra dia e noite"[30]. Isto atesta que eles mesmos com­preendiam então a Regra em muitos pontos, não no seu sentido histórico do século VI, mas conforme os comentários posteriores.

Os mosteiros fundados por Cister e suas filiais foram, desde o início, abadias independentes, unidas entre si, conforme estabelecia a Carta da Caridade. Seus abades reuniam-se anualmente em Cister para o Capítulo Geral, a fim de promover o bem espiritual dos monges a eles confiados.

Desde os primeiros decênios do século XII, os abades da nossa Ordem promoveram fundações de mosteiros de monjas e lhes prestaram ajuda para que pudessem orientar a própria vida. Até o ano de 1184, os mosteiros masculinos e femininos, estavam sob a jurisdição dos bispos. Após ter obtido a isenção, muitos mosteiros de monjas foram incorporados à Ordem.

No início, as abadessas fundadoras visitavam regularmente as abadias por elas fundadas e estas celebravam os próprios capítulos. No entanto, por causa de lei da clausura, que na Idade Média se tornou cada vez mais rigorosa, principalmente para as monjas, a visita passou a ser feita pelo pai imediato e os capítulos das Abadessas, porém, não se celebraram mais.

Capítulo 11 Como serão celebradas as Vigílias aos domingos

RB 11, 1-13

13 fev 14 jun 14 out

 
  A

os domingos, levante-se mais cedo para as Vigílias, nas quais se mantenha a mesma medida já referida, isto é: modulados, conforme dispusemos acima, seis salmos e o versículo, e estando todos convenien­temente e pela ordem assentados nos bancos, leiam-se no livro, como já mencionamos, quatro lições com seus responsórios; só o quarto responsório é dito por quem está cantando o "Gloria", ao começo do qual se levantem todos com reverência. A essas lições sigam-se, por ordem, outros seis salmos com antífonas, como os anteriores, e o ver­sículo. Terminados esses, voltam-se a ler outras quatro lições com seus responsórios, na mesma ordem que acima. Em seguida, digam-se três cânticos dos Profetas que o Abade determinar, os quais sejam salmo­diados com "Aleluia". Dito também o versículo, sejam lidas com a bên­ção do Abade outras quatro lições do Novo Testamento, na mesma ordem que acima. Depois do quarto responsório o abade entoa o hino "Te Deum laudamus". Uma vez terminado, leia o Abade o Evangelho, per­manecendo todos de pé com reverência e temor. Quando essa leitura terminar, respondam todos: "Amém"; e o abade prossegue logo com o hino "Te decet laus", e, dada a bênção, comecem as Matinas. Essa dis­posição das Vigílias para o domingo deve ser mantida, como está, em to­do tempo, tanto no verão quanto no inverno, a não ser que, por acaso, e que tal não aconteça, os monges se levantem mais tarde e se tenha de abreviar algo das lições ou dos responsórios. Haja, porém, todo o cuidado para que isso não venha a suceder; se, porém, acontecer, satisfaça dignamente a Deus no oratório, aquele por cuja culpa veio esse fato a verificar-se.

Declaratio art. 24

24. Crescendo a Ordem, com a rapidíssima fundação de centenas de abadias e a incorporação de diversas Congregações (as Congregações de Saviniaco e de Obazina, ainda em vida de S. Bernardo), a semelhança dos costumes[31], que existia inicialmente, se foi diversificando, lenta e imperceptivelmente. A transformação da vida social, intelectual e política não deixou também de influir na evolução da Ordem. Por isso, o Capítulo Geral empenhava-se sempre em adaptar a legislação da Ordem às novas exigências, não vacilando, no século XII, em retocar, várias vezes e profundamente, também a Carta de Caridade[32].

Capítulo 12 Como será realizada a solenidade das matinas

RB 12,1-4

14 fev 15 jun 15 out

 
  N

as Matinas de domingo, diga-se em primeiro lugar o salmo sexagésimo sexto, sem antífona, em tom direto. Diga-se, depois, o quinquagésimo, com "Ale­luia". Em seguida, o centésimo décimo sétimo e o sexagésimo segundo; seguem-se então os "Benedicite", e os "Laudate", uma lição do Apocalipse de cor, o responsório, o ambrosiano, o versículo, o cântico do Evangelho, a litania, e está terminado.

Declaratio art. 25

25. O grande número dos abades no Capítulo Geral levou ainda à criação do Definitório, que recebeu sua forma definitiva em 1265[33] e a conservou até a Revolução Francesa . Por esse motivo, como também por causa das guerras e outras dificuldades, os abades começaram a comparecer mais raramente ao Capítulo Geral. Nessa mesma ocasião, a vida Cisterciense tomou novas formas em várias regiões, principalmente na Europa Central e Oriental e também em Portugal.

A essas razões, no decurso dos tempos, acrescentaram-se outras, políticas e eclesiásticas, como a instituição da comenda, que exigiam novas soluções nas diversas regiões. Nasceram assim as diversas Congregações na Ordem (a Castelhana, em 1425; a Congregação de São Bernardo, na Itália, em 1498; a Lusitana, em 1567, por atos dos Romanos Pontífices; no século XVII, também com a colaboração do Capítulo Geral, as Congregações Calabro-Lucana, Romana e as da Aragônia e da Germânia Superior)[34].

Capítulo 13 Como serão realizadas as matinas em dia comum

RB 13,1-11

15 fev 16 jun 16 out

 
  N

os dias comuns, porém, a solenidade das Matinas seja assim realizada, a saber: recita-se o salmo sexa­gésimo sexto sem antífona, um tanto lentamente, como no domingo, de modo que todos cheguem para o quinquagésimo, o qual deve ser recitado com antífona. Depois desse, recitem-se outros dois salmos, segundo o costume, isto é, segunda-feira, o quinto e o trigésimo quinto; terça-feira, o quadragésimo segundo e o quinquagésimo sexto; quarta-feira, o sexagésimo terceiro e o sexa­gésimo quarto; quinta-feira, o octogésimo sétimo e o octogésimo nono; sexta-feira, o septuagésimo quinto e o nonagésimo primeiro; sábado, o cen­tésimo quadragésimo segundo e o cântico do Deuteronômio, que deve ser dividido em dois "Gloria". Nos outros dias, diga-se um cântico dos Profetas, um para cada dia, como canta a Igreja Romana. A esses se­guem-se os "Laudate", depois uma lição do Apóstolo recitada de me­mória, o responsório, o ambrosiano, o versículo, o cântico do Evangelho, a litania, e está completo.

RB 13,12-14

16 fev 17 jun 17 out

 
  N

ão termine, de forma alguma, o ofício da manhã ou da tarde sem que o superior diga, em último lugar, por inteiro e de modo que todos ouçam, a oração do­mi­nical, por causa dos espinhos de escândalos que cos­tumam surgir, de maneira que, interpelados os irmãos pela promessa da própria oração que estão rezando: "perdoai-nos assim como nós per­doamos", se preservem de tais vícios. Nos demais ofícios diga-se a última parte dessa oração, de modo a ser respondido por todos: "Mas livrai-nos do mal".

Declaratio arts. 26-28

26. Nesses séculos, crescia sempre mais a importância dada ao sacerdócio e vários mosteiros assumiram diversos encargos do ministério pastoral. Após o Concílio Tridentino, em muitas partes da Ordem, a cura pastoral nas paróquias obteve a primazia no trabalho e se tornou a principal ocupação de muitos monges sacerdotes[35].

27. A educação da juventude nas escolas tem longas e sólidas raízes na tradição monástica antiga e, embora os primeiros Cistercienses se ten­ham negado ao trabalho educacional, por causa das circunstâncias daquele tempo, posteriormente, no entanto, também esse trabalho foi ad­mitido entre nós, sob diversas formas. A tarefa de ensinar nas escolas pú­blicas oficiais foi assumida por muitos mosteiros, principalmente a par­tir do século XVIII, quando teve início o moderno sistema de educação[36].

28. Grandes prejuízos sofreu a Ordem no século XVI, com a Reforma Luterana e suas conseqüências, mas a partir do século XVII começou a reflorescer[37], de novo, em muitas regiões. Nessa época, as abadias que, pela aceitação da cura pastoral e de escolas se tinham tornado solidárias dos trabalhos e das solicitudes das igrejas locais, esforçavam-se por adaptar, em grande parte, a própria vida aos novos encargos. Porém, Revolução Francesa, o Josephinismo e as secularizações que se lhe seguiram imediatamente, destruíram radicalmente a maior parte dos mosteiros e a organização da Ordem.

Tendo sido supresso o mosteiro de Cister, como as Constituições da Ordem não fossem aptas para superar as dificuldades e como não havia possibilidade de convocar o Capítulo Geral, o direito constitucional antigo da Ordem foi substancialmente mudado. Após a morte do Abade de Cister, a Santa Sé viu-se profundamente preocupada e conseguiu prover apenas de modo provisório às necessidades da Ordem. Porém, Pio VII, ao voltar da França para Roma, onde Napoleão o mantivera preso por algum tempo, nomeou o Abade Presidente da Congregação de S.Bernardo na Itália Superior da Ordem Cisterciense até 1880. Sem dúvida, a jurisdição deste Abade foi feita quase unicamente para que ele pudesse confirmar os Abades neo-eleitos da Observância mais estrita. Esta decisão foi tomada para que se conservasse a unidade da Ordem.

Quando, em 1834, foi erigida pelo Sumo Pontífice a primeira Congregação da B.M.V. da Trappa, claramente ficou certo que aquela Congregação estava sob a jurisdição do Abade Geral.

Os esforços que se fizeram para convocar o Capítulo Geral de todos os Abades não obtiveram feliz resultado. Sendo assim, o primeiro Capítulo Geral, depois da Revolução Francesa, só foi celebrado el 1880. Os seus participantes foram escolhidos pela S. Sé.

No ano 1892, no capítulo da união das três Congregações da mais Estrita Observância[38], os padres capitulares, livremente constituíram uma ordem autônoma: A Ordem dos Cistercienses Reformados de B.M.V. de Trappa. Leão XIII, tendo em vista a impossibilidade de reunir as duas Ordens, em 1892, atribuiu o nome de "Família Cisterciense" às duas Ordens, e concede à Ordem dos Cistercienses Reformados todos os privilégios da Ordem Cisterciense.

Capítulo 14 Como serão celebradas as Vigílias nos natalícios dos Santos

RB 14,1-2

17 fev 18 jun 18 out

 
  N

as festas dos Santos e em todas as solenidades, proceda-se do mesmo modo que indicamos para o domingo exceto que, quanto aos salmos, antífonas e lições, sejam ditos os que pertencem à própria festa; mantenha-se, porém, a mesma disposição acima descrita.

Declaratio art. 29

29. Os abades dos mosteiros restantes tinham-se reunido, já no século XIX, por diversas vezes, em Capítulos Gerais e, em nosso século, por 3 vezes elaboraram Constituições para o supremo governo da Ordem[39]. Nessa ocasião, vários mosteiros fundados fora da Ordem, e a Congregação de Casamari se uniram à Ordem[40] e várias fundações foram feitas em terras de Missão.

Depois da segunda guerra mundial os mosteiros das monjas da Espanha e da Itália fizeram uma Federação de direito pontifício. Foi uma obra de gran­de mérito, tanto no aspecto espiritual, como no aspecto material. É ne­cessário que se leve adiante este encargo a favor dos mosteiros e da Ordem.

Nasceu, assim, a nossa Ordem hodierna, que abrange uma realidade bem complexa. É, por isso, muitíssimo necessário, no trabalho do ajornamento, que primeiramente cada comunidade defina sua finalidade e encargos com clareza e sinceridade. Uma tal especificação também redundará para a Ordem em vitalidade e mútua compreensão.

Capítulo 15 Em quais épocas será dito o Aleluia

RB 15,1-4

18 fev 19 jun 19 out

 
  D

a Santa Páscoa até Pentecostes, diga-se sem inter­rupção o "Aleluia" tanto nos salmos como nos res­pon­sórios. De Pentecostes até o início da Quares­ma, diga-se todas as noites, mas somente com os seis úl­ti­mos salmos dos noturnos . Em todo domingo, fora da Quaresma, di­gam-se com "Aleluia" os Cânticos, as Matinas, Prima, Terça, Sexta e Noa; entretanto, as Vésperas sejam ditas com antífona. Quanto aos res­ponsórios, nunca são ditos com "Aleluia", a não ser de Páscoa até Pentecostes.

Declaratio art. 59

59. O monge que busca a Deus seguindo a Cristo e desejando servi-Lo, ora freqüentemente. Nosso espírito e nosso coração elevam-se às coisas de Deus pela meditação da Palavra de Deus que se nos revela, e pela oração, em comum ou em particular, que responde à Palavra de Deus. Podemos encontrar aí também uma fonte de inspiração para todos os nossos atos e, ao mesmo tempo, verificar melhor a orientação da nossa vida e retificá-la mais freqüentemente.

Capítulo 16 Como serão celebrados os ofícios durante o dia

RB 16,1-5

19 fev 20 jun 20 out

 
  D

iz o Profeta: "Louvei-vos sete vezes por dia". Assim, também nós realizaremos esse sagrado número, se, por ocasião das Matinas, Prima, Terça, Sexta, Noa, Vésperas e Completas, cumprirmos os deveres da nossa servidão; porque foi destas Horas do dia que ele disse: "Louvei-vos sete vezes por dia". Quanto às Vigílias noturnas, diz da mesma forma o mesmo profeta: "Levantava-me no meio da noite para louvar-vos". Rendamos, portanto, nessas horas, louvores ao nosso Criador "sobre os juízos da sua justiça", isto é, nas Matinas, Prima, Terça, Sexta, Noa, Vésperas e Completas; e à noite, levantemo-nos para louvá-Lo.

Declaratio art. 60

60. Como a vocação religiosa é uma graça de Deus, também a nossa capacidade de orar não procede de nós, mas do Espírito Santo, no qual clamamos Abá, Papai[41]. Na recepção dos sacramentos e especialmente na celebração diária da Eucaristia, essa vida da graça em nós é assiduamente alimentada e a nossa oração unida sacramentalmente aos atos salvíficos do Cristo.

Mas os monges - como se depreende de toda a tradição monástica e dos ensinamentos da Igreja - são chamados, de modo especial, a prolongar na Igreja a oração do Cristo, tanto na celebração da missa e do ofício divino, que devem ocupar o primeiro lugar em suas vidas[42], como também nas outras formas de oração, visto que a oração lhes deve embeber toda a vida.

Capítulo 17 Quantos salmos deverão ser cantados nessas mesmas horas

RB 17,1-10

20 fev 21 jun 21 out

 
  J

á dispusemos a Ordem da Salmodia, dos Noturnos e das Matinas; vejamos agora a das Horas seguintes. À Hora de Prima sejam ditos: três salmos separadamente, não sob um só "Gloria", e o hino da mesma Hora, que virá depois do versículo " Ó Deus, vinde em meu auxílio" e antes que sejam começados os salmos. Terminados os três salmos, recitem-se uma lição, o versículo, "Kyrie eleison", e façam-se as orações finais. Terça, Sexta, e Noa sejam celebradas segundo a mesma ordem, isto é: versículo, hinos de cada uma das Horas, três salmos, lição e versículo, "Kyrie eleison" e as orações finais. Se a comunidade for grande, sejam os salmos cantados com antífona; se for pequena, em tom direto. A sinaxe vespertina consta de quatro salmos com antífonas; depois dos quais deve ser recitada uma lição; em seguida o responsório, o ambrosiano, o versículo, o cântico do Evangelho, a litania, a oração dominical e as orações finais. As Completas compreendem a recitação de três salmos, que devem ser ditos em tom direto, sem antífona; Depois deles, o hino da mesma Hora, uma lição, o versículo, o "Kyrie eleison", a bênção e as orações finais.

Declaratio art.61

61. Na celebração eucarística o sacrifício de Cristo, oferecido por nós uma só vez na cruz, cada dia se torna presente para nós. Aí, as ações humanas que cultuam a Deus tornam-se um sinal eficaz dos atos do Cristo, de modo que o dom e a palavra de Deus unem-se o mais profundamente possível à resposta do homem, pela ação de graças e pelo louvor, para a glória de Deus e a santificação do homem. Todos os ministérios da Igreja ordenam-se à celebração da Eucaristia, que é, verdadeiramente, o centro de toda a liturgia e da vida cristã[43]. Também, em nossa vida ela deve ocupar o primeiro lugar, pois é o sacramento da piedade, sinal da unidade, vínculo da caridade, convívio pascal, no qual se recebe o Cristo; a mente torna-se plena da graça e recebemos o penhor da glória futura. A adoração de Cristo presente na Eucaristia nos dá uma grande ajuda para que a participação ativa no sacrifício de Cristo se estenda mais eficazmente por todo o dia.

Capítulo 18 Em que ordem os mesmos salmos devem ser ditos

RB 18,1-6

21 fev 22 jun 22 out

 
  D

iga-se o versículo: "Ó Deus, vinde em meu auxílio; apressai-vos, Senhor, em socorrer-me", o Glória, e de­pois o Hino de cada uma das Horas . Em seguida, na hora de Prima do domingo, devem ser ditas quatro di­visões do salmo centésimo décimo oitavo; nas demais Horas, isto é, Terça, Sexta e Noa digam-se três divisões do referido salmo centésimo dé­cimo oitavo. Na Prima da Segunda feira, digam-se três salmos, a sa­ber: o primeiro, o segundo e o sexto. E assim em cada dia, até o domin­go, digam-se na Prima, por ordem, três salmos até o décimo nono; de tal modo que sejam divididos em dois o salmo nono e o décimo sétimo. E faça-se assim, para que sempre se comecem as Vigílias do domingo pelo vigésimo.

RB 18,7-11

22 fev 23 jun 23 out

 
  N

a Terça, Sexta e Noa da segunda-feira, digam-se as nove divisões que restam do salmo centésimo décimo oitavo, três em cada Hora. Percorrido, portanto, o sal­mo centésimo décimo oitavo nos dois dias - domingo e segunda-feira, já na Terça, Sexta e Noa da terça-feira, salmodiam-se três salmos de cada vez, do centésimo décimo nono até o centésimo vigésimo sétimo, isto é, nove salmos. Repitam-se sempre esses salmos pelas mesmas Horas até o domingo, conservando-se de maneira uniforme e todos os dias a disposição dos hinos, bem assim como a das lições e versículos; e, assim sendo, comece-se sempre no domingo com o centésimo décimo oitavo.

RB 18,12-19

23 fev 24 jun 24 out

 
  A

s Vésperas sejam cantadas diariamente pela modu­lação de quatro salmos. Esses salmos vão do centési­mo nono até o centésimo quadragésimo sétimo, excetuados alguns que dentre esses foram tirados para outras Horas, isto é, do centésimo décimo sétimo ao centésimo vi­gé­simo sétimo, mais o centésimo trigésimo terceiro e o centésimo qua­dragésimo segundo; todos os demais devem ser ditos nas Vésperas. Co­mo, porém, ficam faltando três salmos, devem ser divididos os mais longos dentre os supracitados, isto é, o centésimo trigésimo oitavo, o centésimo quadragésimo terceiro e o centésimo quadragésimo quarto. O centésimo sexto, por ser pequeno, seja unido ao centésimo décimo quin­to. Distribuída, pois, a ordem dos salmos vespertinos, quanto ao restante - isto é, a lição, o responsório, o hino, o versículo e o cântico - proceda-se como determinamos acima. Nas Completas, repitam-se todos os dias os mesmos salmos: o quarto, o nonagésimo e o centésimo trigésimo terceiro.

RB 18,20-25

24 fev, se for bissexto; 

senão, une-se ao precedente

25 jun

25 out

 
   D

isposta a ordem da salmodia diurna, distribuam-se igualmente todos os salmos que restam, pelas se­te Vigílias da noite, partindo-se, naturalmente, os que, dentre eles forem mais longos e estabe­lecendo-se doze para cada noite.

            Advertimos de modo especial que, se porventura essa distri­buição dos salmos não agradar a alguém, que ordene como achar me­lhor; mas, seja como for, atenda a que seja salmodiado cada semana, integralmente, o saltério de cento e cinqüenta salmos e que se comece sempre, de novo, nas Vigílias do domingo, porque os monges que, no de­curso da semana, recitam menos do que o saltério com os cânticos cos­tumeiros revelam ser por demais frouxo o serviço de sua devoção. Pois lemos que os nossos santos Pais realizavam, corajosamente, em um só dia isso que oxalá nós indolentes, cumprimos no decorrer de toda uma semana.

Declaratio art. 62

62. Na renovação do Ofício divino, que se acha em curso e deve ser completada, estejamos atentos primeiramente à unidade e à harmonia entre a liturgia e as outras faces da vida religiosa. Embora a liturgia seja "o ápice ao qual tende toda a ação da Igreja e ao mesmo tempo a fonte de onde emana toda a sua força"[44], ela não esgota toda a ação da Igreja e do mosteiro. Por isso, a vida cotidiana deve favorecer a frutuosa cele­bração da liturgia e, por seu lado, a estrutura e as formas litúrgicas de­vem ser tais que alimentem e vivifiquem a vida diária.

Capítulo 19 Da maneira de salmodiar

RB 19,1-7

24 (25) fev 26 jun     26 out

 
   C

remos estar em toda parte a presença divina e que "os olho do Senhor vêem em todo lugar os bons e os maus". Creiamos nisso principalmente e sem dú­vida alguma, quando estamos presentes ao Ofí­cio Divino. Lembremo-nos, pois, sempre, do que diz o Profeta: "Servi ao Senhor no temor". E também: "Salmodiai sabiamente". E ainda: "Cantar-vos-ei em face dos anjos". Consideremos, pois, de que maneira cumpre estar na presença da Divindade e de seus anjos; e tal seja a nossa presença na salmodia, que nossa mente concorde com nossa voz.

Declaratio art. 63

63. Pertence necessariamente à vida de oração também a lectio divina, que exige uma idônea formação e certas condições para ser verdadeiramente uma leitura orante, tranqüila e assídua. Possuindo tais qualidades, a lectio divina ajuda eficazmente o monge para que se torne sempre mais um "homem de Deus", consciente da Sua presença e conhecendo com clareza a sua vontade.

A observância do silêncio fomenta singularmente o espírito de oração. Observando fielmente as horas de silêncio, nossos corações preparam-se para melhor ouvir a Palavra de Deus e vivê-la mais generosamente.

Capítulo 20 Da reverência na oração

RB 20,1-5

25 (26) fev 27 jun     27 out

 
   S

e queremos sugerir alguma coisa aos homens pode­rosos, não ousamos fazê-lo a não ser com humil­dade e reverência; quanto mais não se deverá em­pre­gar toda a humildade e pureza de devoção para suplicar ao Senhor Deus de todas as coisas? E saibamos que seremos ouvidos, não com o muito falar, mas com a pureza do coração e a com­pun­ção das lágrimas. Por isso, a oração deve ser breve e pura, a não ser que, por ventura, venha a prolongar-se por um afeto de inspiração da graça divina. Em comunidade, porém, que a oração seja bastante abre­viada e, dado o sinal pelo superior, levantem-se todos ao mesmo tempo.

Declaratio art. 64

64. A unidade da vida manifesta-se na harmônica fusão de seus elementos[45]. A vida litúrgica de nossos mosteiros seja um facho que ilumine e aqueça toda a igreja local. As celebrações litúrgicas convidem a uma ativa participação os cristãos da vizinhança e ofereçam ao povo cristão uma fonte exuberante para a sua vida espiritual.

Capítulo 21 Dos decanos do mosteiro

RB 21,1-7

26 (27) fev 28 jun     28 out

 
   S

e a comunidade for numerosa, sejam escolhidos, dentre os seus membros, irmãos de bom testemunho e de vida monástica santa, e constituídos Decanos; em­preguem sua solicitude em tudo o que diz res­peito às suas decanias, conforme os mandamentos de Deus e os precei­tos do seu Abade. Que os Decanos eleitos sejam tais que possa o Abade, com segurança, repartir com eles o seu ônus ; e não sejam escolhidos pe­la ordem na comunidade, mas segundo o mérito da vida e a doutrina da sabedoria. Se algum dentre os Decanos, acaso inchado por qualquer so­berba, for julgado merecedor de repreensão, seja repreendido uma, du­as, até três vezes; se não quiser emendar-se seja destituído e ponha-se em seu lugar outro que seja digno. O mesmo determinamos a respeito do Prior.

Declaratio art. 77

77. Tendo delineado os traços específicos de nossa Ordem em sua exis­tência concreta e explanado, resumidamente, os valores fundamentais da vida Cisterciense, resta-nos considerar a organização prática da vida e a adequada estrutura jurídica de cada comunidade e de cada congregação, como também de toda a nossa Ordem. Não basta, com efeito, apresentar apenas os ensinamentos sobre os nossos fins e valores, mas devemos procurar também as razões práticas e jurídicas que ordenam a vida de nossas comunidades e as orientam para alcançar os seus fins.

Julgamos conveniente expor, a seguir, somente os elementos e prin­cípios que nos parecem necessários para a solução adequada dos pro­blemas atuais, deixando às Constituições da Ordem e congregações e aos estatutos locais[46] a organização mais detalhada da vida. Exporemos, por­tanto, em primeiro lugar, os aspectos fundamentais de toda orga­nização jurídica e do exercício da autoridade. Falaremos depois, espe­cial­mente, dos princípios para o governo dos mosteiros, congregações e da Ordem, acrescentando, finalmente, algo sobre as relações entre nossa Ordem e as outras Ordens monásticas e os órgãos da lgreja.

Capítulo 22 Como devem dormir os monges

RB 22,1-8

27 (28) fev 29 jun     29 out

 
   D

urma cada um em uma cama. Tenham seus leitos de acordo com o modo de viver monástico e con­forme o abade distribuir. Se for possível, dur­mam todos num mesmo lugar; se, porém, o número não o permitir, durmam aos grupos de dez ou vinte, em com­panhia de monges mais velhos que sejam solícitos para com eles. Esteja acesa nesse recinto uma candeia sem interrupção, até o amanhecer. Durmam vestidos e cingidos com cintos ou cordas, mas de forma que não tenham, enquanto dormem, as facas a seu lado, a fim de que não ven­ham elas a ferir, durante o sono, quem está dormindo; e de modo que estejam os monges sempre prontos e, assim, dado o sinal, levantando-se sem demora, apressem-se mutuamente e antecipem-se no Ofício Divino, porém com toda gravidade e modéstia. Que os irmãos mais jovens não tenham leitos juntos, mas intercalados com os dos mais velhos. Levan­tando-se para o Ofício Divino chamem-se mutuamente, para que não tenham desculpas os sonolentos; façam-no, porém, com moderação.

Capítulo 23 Da excomunhão pelas faltas

RB 23,1-5

28 (29) fev 30 jun     30 out

 
   S

e houver algum irmão teimoso ou desobediente, soberbo ou murmurador, ou em algum modo con­trário à santa Regra, e desprezador dos preceitos dos seus superiores, seja ele admoestado, conforme o preceito de nosso Senhor, a primeira e a segunda vez, em particular pe­los seus superiores. Se não se emendar, seja repreendido publi­camente, diante de todos. Se porém, nem assim se corrigir sofra a excomunhão, caso possa compreender o que seja essa pena. Se, entretanto, está de ânimo endurecido, seja submetido a castigo corporal.

Declaratio art. 78

78. Tudo o que se seque, aplica-se também aos nossos mosteiros fe­mininos, exceto o que, pela própria natureza do assunto, lhes for con­trário[47]. As monjas de nossa Ordem não constituem uma "segunda ordem" do lado da "primeira", dos monges, mas são integralmente de uma mesma Ordem Cisterciense. Seus mosteiros são verdadeiramente independentes, embora no foro jurisdicional dependam, algumas vezes, do Abade imediato ou do Bispo. Além disso, muitos desses mosteiros fazem parte de nossas congregações, regendo-se por leis semelhantes às dos monges. Por isso, deve ser promovido, eficaz e constantemente, a participação gradativa das monjas nas decisões que dizem respeito à sua vida e mesmo à própria congregação e à toda a Ordem.

Capítulo 24 Qual deve ser o modo de proceder-se à excomunhão

RB 24,1-7

1 mar 1 jul 31 out

 
  A

 medida tanto da excomunhão como da disciplina, deve regular-se segundo a espécie da falta, e esta espécie das faltas está sob critério do julgamento do abade. Se algum irmão incorrer em faltas mais leves, seja privado da participação à mesa. Será este o proceder de quem está privado da mesa: não entoe salmo, nem antífona no oratório, nem recite lição até que tenha sido dada a devida satisfação. Receba sozinho a sua refeição depois da refeição dos irmãos; de modo que, por exemplo, se os irmãos vão tomar a refeição à hora sexta, aquele irmão o fará à hora nona; se os irmãos à nona, ele à hora de Vésperas, até que tenha obtido o perdão por conveniente satisfação.

Declaratio art. 81

81. Embora a comunidade monástica deva fundamentar-se, primeira­mente, no amor do Cristo e no amor fraterno, como também na acei­tação livre dos fins e encargos do próprio mosteiro, ela necessita, no entanto, como sociedade estável de homens com um mesmo fim deter­mi­nado, de uma firme estrutura, isto é, de uma reta organização feita por leis e pelas normas dos superiores. Só desse modo asseguram-se a esta­bi­lidade e a continuidade da vida, as forças de todos os membros são orientadas mais eficazmente para o fim comum e a vida e as atividades de todos se coordenam em paz. Além das leis e outras prescrições es­critas que regulamentam os aspectos mais fundamentais da vida é indis­pensável também a autoridade pessoal do abade e dos oficiais para que possam ser determinados, com responsabiIidade e rapidez, os modos con­cretos de agir que, entre as tão diversas e mutáveis condições da vida moderna, não podem ser determinadas por leis minuciosas. Para estatuir tais leis e normas, tenham grande atuação os capítulos, conselhos e ou­tros órgãos representativos da comunidade e, em alguns casos deter­minados pelo direito, manifestem-se pelo voto deliberativo. Esses ór­gãos devem também coadjuvar os superiores e oficiais nas decisões concretas que, de direito, cabem só ao abade ou a um determinado oficial, sem, de modo algum, lhes tirar ou diminuir a responsabilidade e o direito de decidir.

Capítulo 25 Das faltas mais graves

RB 25,1-6

2 mar 2 jul  1 nov

 
  Q

ue seja suspenso da mesa e também do oratório o irmão culpado de faltas mais graves. Que nenhum irmão se junte a ele em nenhuma espécie de relação, nem para lhe falar. Esteja sozinho no trabalho que lhe for determinado, permanecendo no luto da penitên­cia, ciente daquela terrível sentença do Apóstolo que diz: "Este homem foi assim entregue à morte da carne para que seu espírito se salve no dia do Senhor". Faça a sós a sua refeição na medida e na hora que o Abade julgar convenientes, não seja abençoado por ninguém que por ele passe, nem também a comida que lhe é dada.

Declaratio art. 82

82. A autoridade das leis e dos superiores no mosteiro tem muitos traços comuns com a legítima autoridade da sociedade civil, mas não lhe pode ser perfeitamente equiparada. Em primeiro lugar, a autoridade exercida no mosteiro tem sempre um caráter eclesial, proveniente da aprovação da Regra e das Constituições pela Santa Sé e ainda da aceitação de nossa profissão pela Igreja[48]. Nosso amor ao mosteiro nasce, pois, do nosso amor à Igreja, a quem nos unimos mais intimamente pela pro­fissão e quanto mais a amarmos, maior se tornará o nosso amor ao mosteiro. Além disso, a autoridade no mosteiro tem também um caráter profundamente religioso, visto que a obediência monástica não se enraíza em uma obrigação ou em motivos humanos, mas na nossa pró­pria vocação e na voluntária dedicação ao serviço da Vontade de Deus. Aqueles que na comunidade têm os poderes de legislar ou de ordenar são como instrumentos, para que se conheça concretamente nessa comunidade, a Vontade de Deus. Assim, como não é lícito identificar a obediência a Deus simplesmente com a obediência a um homem, tam­bém na vida monástica obedecemos, no seu verdadeiro sentido, aos que fazem as vezes do Cristo e a obediência prestada aos superiores faz parte do serviço do Senhor[49].

Embora a autoridade, na comunidade monástica, tenha raízes mais pro­fundas do que a autoridade nas sociedades civis, não devem ser menos­prezados ou rejeitados os novos métodos e experiências dessas socie­dades e sim examinados com espírito de abertura. Muitíssimas vezes, nos diversos movimentos sociais ou nas formas de governo, encontra-se algo de útil que nos pode ser de proveito para a adequada estruturação da vida monástica hodierna[50].

Capítulo 26 Dos que sem autorização se juntam aos excomungados

RB 26,1-2

3 mar 2 jul   2 nov

 
  S

e algum irmão ousar juntar-se, de qualquer modo, ao irmão excomungado sem ordem do Abade, ou de falar com ele ou mandar-lhe um recado, aplique-se-lhe o mesmo castigo de excomunhão.

Declaratio art. 83

83. Devem ser cuidadosamente respeitados, na estruturação e na legislação da vida monástica, corno também no exercício da autoridade pessoal, os princípios sociológicos fundados no direito natural que, nos últimos tempos, foram mais claramente elucidados e são ensinados pelo Magistério da Igreja com grande insistência. Entre eles, são para nós, de máxima importância, os princípios correlativos do personalismo e da soli­dariedade, como também os da subsidiariedade e do legítimo pluralismo no seio da necessária unidade.

Capítulo 27 Como deve o Abade ser solícito para com os excomungados

RB 27,1-9

4 mar 4 jul  3 nov

 
  C

uide o Abade com toda a solicitude dos irmãos que caírem em faltas, porque "não é para os sadios que o médico é necessário, mas para os que estão doentes". Por isso, como sábio médico, deve usar de todos os meios, enviar "simpectas", isto é, irmãos mais velhos e sábios que, em parti­cular, consolem o irmão flutuante e o induzam a uma humilde satis­fação, o consolem "para que não seja absorvido por demasiada tristeza", mas, como diz ainda o Apóstolo, "confirme-se a caridade para com ele", e rezem todos por ele.

            O Abade deve, pois, empregar extraordinária solicitude e deve empenhar-se com toda sagacidade e indústria, para que não perca algu­ma das ovelhas a si confiadas. Reconhecerá, pois, ter recebido a cura das almas enfermas, e não a tirania sobre as sãs; tema a ameaça do profeta, através da qual Deus nos diz: "o que víeis gordo assumíeis e o que era fraco lançáveis fora". Imite o pio exemplo do bom pastor que, deixando as noventa e nove ovelhas nos montes, saiu a procurar uma única ovelha que desgarrara, de cuja fraqueza a tal ponto se compa­deceu, que se dignou colocá-la em seus sagrados ombros e assim trazê-la de novo ao aprisco.

Declaratio art. 84

84. O princípio do personalismo, princípio fundamental da doutrina so­cial católica, ensina que o sujeito e o fim de todas as instituições sociais é e deve ser a pessoa humana[51]. Por isso, todas as nossas estruturas jurídicas devem, antes de tudo, estar a serviço desse fim, para que os nossos monges possam alcançar, mais plena e facilmente, sua perfeição e desincumbir-se dos encargos de sua vocação melhor e com mais facilidade. A dignidade sagrada da pessoa humana[52] baseia-se na sua natureza e, ainda mais, na sua vocação sobrenatural e os direitos inalie­náveis que daí derivam[53] devem ser também reconhecidos e respeitados na legislação e no governo do mosteiro e da Ordem.

Donde se conclui que as leis e as ordens dos superiores não devem manter os monges numa dependência infantil, mas levá-los ao uso da madura liberdade cristã e de uma responsável participação no governo para o bem de toda a comunidade, assim como valorizar a competência pessoal de cada monge e dar ampla liberdade às sábias iniciativas.

Capítulo 28 Daqueles que muitas vezes corrigidos não quiserem emendar-se

RB 28,1-7

5 mar 5 jul   4 nov

 
  S

e algum irmão freqüentes vezes corrigido por qualquer culpa não se emendar, nem mesmo depois de excomun­gado, que incida sobre ele uma correção mais severa, isto é, use-se o castigo das varas. Se nem assim se corrigir, ou se por acaso, o que não aconteça, exaltado pela soberba, quiser mesmo defender suas ações, faça então o Abade como sábio mé­dico: se aplicou as fomentações, os ungüentos das exortações, os medi­camentos das divinas Escrituras e enfim a cauterização da excomun­hão e das pancadas de vara e vir que nada obtém com sua indústria, aplique então o que é maior: a sua oração e a de todos os irmãos por ele, para que o Senhor, que tudo pode, opere a salvação do irmão enfermo. Se nem dessa maneira se curar, use já agora o Abade o ferro da amputação, como diz o Apóstolo: "Tirai o mal do meio de vós" e também: "Se o infiel se vai, que se vá", a fim de que uma ovelha enferma não contagie todo o rebanho.

Declaratio art. 85

85. Não se segue, porém, que por causa do princípio do personalismo possamos entregar-nos ao vício do individualismo, pois o princípio correlativo ao personalismo é o da solidariedade. A pessoa humana, por sua natureza, necessita de vida social[54] e, ainda mais, tem uma vocação sobrenatural essencialmente comunitária. Deus, com efeito, não quis salvar e santificar os homens individualmente, sem nenhum liame mútuo, mas sim constitui-los em um só povo, para que, vinculados pelo Espírito, se congregassem no Corpo de Cristo[55]. Nossa vida cenobítica deve exprimir, de modo especial, essa natureza comunitária da salvação e da vida crista e manifestá-la ao mundo.

A adequada legislação e o governo monástico muito contribuirão para a instituição e consolidação dessa vida de solidariedade se, em primeiro lugar, promoverem o acordo de todos com referência a seus fins e valores, coordenarem as forças para a realização dos fins comuns e procurarem criar formas adequadas e cativantes dessa vida de família. Em espírito de solidariedade, receba cada monge, de boa vontade, e com alegria, os encargos que lhe forem confiados, mesmo se, às vezes, não lhe agradarem, mas para servir os irmãos e ao bem comum.

Capítulo 29 Se devem ser novamente recebidos os irmãos que saem do mosteiro

RB 29,1-3

6 mar 6 jul   5 nov

 
  O

 irmão que sai do mosteiro por culpa própria, se quiser voltar, prometa, antes, uma completa emenda do vício que foi a causa de sua saída, e então seja recebido no último lugar, para que assim se prove a sua humildade. Se de novo sair, seja assim recebido até três vezes, já sabendo que depois lhe será negado todo caminho de volta.

Declaratio art. 86

86. O princípio de subsidiariedade ordena as relações entre cada pessoa e a comunidade e também entre comunidades maiores e menores. Ele estabelece que a autoridade superior, da comunidade maior, deve deixar nas mãos dos inferiores tudo o que estes podem realizar com eficiência e, muitíssimas vezes, com superioridade; e onde os inferiores não se bastam ou se mostram negligentes no seu dever, deve oferecer-lhes re­forço e ajuda. Desse modo, é preservada a vitalidade e a responsabi­lidade dos inferiores e a autoridade superior pode, mais facilmente, desincumbir-se do seu múnus próprio, que é de coordenar e de dar a decisão final, quando necessário[56].

Isto vale, no nosso caso, tanto para as comunidades locais como para as congregações e a Ordem toda. No mosteiro, portanto, compete ao supe­rior incentivar as sábias iniciativas e responsabilidades pessoais dos mon­ges e dos oficiais e orientá-las para o bem comum[57]. E as auto­ridades das congregações e da Ordem desempenharão plenamente o seu múnus, respeitando a legítima liberdade, os trabalhos próprios dos mos­tei­ros e congregações, oferecendo-lhes auxílio concreto que lhes permi­tam atingir, mais fácil e seguramente, seus fins; além disso, procurarão elaborar os propósitos e planos de conjunto, que excedem as capaci­dades individuais, mas concernem ao bem de todos.

Capítulo 30 De que maneira serão corrigidos os de menor idade

RB 30,1-3

7 mar 7 jul   6 nov

 
  C

ada idade e cada inteligência deve ser tratada segundo medidas próprias. Por isso, os meninos e adolescentes ou os que não podem compreender que espécie de pe­na é, na verdade, a excomunhão, quando cometem alguma falta, sejam afligidos com muitos jejuns ou castigados com ásperas varas, para que se curem.

Declaratio art. 87

87. O princípio do legítimo pluralismo, dentro de necessária unidade, deduz-se claramente do que procede. Deve, pois, ser reconhecido um legítimo pluralismo, isto é, a diversidade dos membros na unidade da comunidade[58] e não é Iícito suprimir, em nome da unidade, a variedade dos talentos e dos caracteres. Também no mosteiro são diversos os ca­ris­mas e cada um tem o seu próprio dom, mas a sua manifestação é dada a cada um para a utilidade de todos. A diversidade dos membros serve ao bem de todo o corpo e cada um deles só pode participar da plenitude do Espírito pela comunhão dos diversos dons.

O mesmo se diga de nossos mosteiros e congregações, que diferem bastante entre si, por sua evolução histórica, pela índole própria de seus membros, pelas circunstâncias sociais e culturais, pelas obrigações e encar­gos exercidos conforme as diversas necessidades da igreja local.

Essas diferenças, porém, não são obstáculos que impessam que os membros se congreguem numa unidade viva, mas, ao contrário, a diversidade dos dons pode proporcionar maior força e vitalidade a toda a Ordem, se existir o espírito de comunidade e a vontade de coope­ração[59].

O equilíbrio entre o pluralismo e a unidade, que pode ser realizado, de­pende em grande parte de uma apta legislação e do reto exercício da au­to­ridade. A segurança de se orientar para seus fins próprios, por meio de leis estáveis, a determinação precisa do que compete a cada um, a clara exposição dos fins e propósitos comuns, a criação de formas práticas de auxílio mútuo - tudo isso e outras coisas semelhantes incitarão a abraçar e a fomentar alegremente a união. Igualmente será muito proveitoso que as autoridades das congregações e da Ordem não considerem as diferenças e as experiências próprias de cada comunidade com suspeita e desconfiança, mas procurem desenvolver e empregar para a utilidade de todos o que nelas houver de bom e válido. Por sua vez, as comunidades da Ordem reconheçam as exigências da unidade e estejam prontas a promovê-Ia e a cooperar, com sinceridade e confiança, com as outras comunidades da Ordem e com os órgãos da autoridade superior.

Capítulo 31 Como deve ser o Celeireiro do mosteiro

RB 31,1-12

8 mar 8 jul   7 nov

 
  S

eja escolhido para Celeireiro do mosteiro, dentre os membros da comunidade, um irmão sábio, maduro de caráter, sóbrio, que não coma muito, não seja orgulho­so, nem turbulento, nem injuriador, nem tardo, nem pró­digo, mas temente a Deus; que seja como um pai para toda a comuni­dade. Tome conta de tudo; nada faça sem ordem do Abade. Cumpra o que for ordenado. Não entristeça seus irmãos. Se algum irmão, por acaso, lhe pedir alguma coisa desarrazoadamente, não o entristeça des­pre­zando-o, mas negue, razoavelmente, com humildade, ao que pede mal. Guarde a sua alma, lembrando-se sempre daquela palavra do Apóstolo: "Quem tiver administrado bem, terá adquirido para si um bom lugar". Cuide com toda solicitude dos enfermos, das crianças, dos hós­pe­des e dos pobres, sabendo, sem dúvida alguma, que deverá prestar contas de todos esses, no dia do juízo. Veja todos os objetos do mosteiro e demais utensílios como vasos sagrados do altar. Nada negligencie. Não se entregue à avareza, nem seja pródigo e esbanjador dos bens do mosteiro; mas faça tudo com medida e conforme a ordem do Abade.

RB 31,13-19

9 mar 9 jul   8 nov

 
  T

enha antes de tudo humildade e não possuindo a coisa com que atender a alguém, entregue-lhe como resposta uma boa palavra, conforme o que está escrito: "A boa palavra está acima da melhor dádiva". Mantenha sob seus cuidados tudo o que o Abade determinar, não presuma, porém, a res­peito do que lhe tiver proibido. Ofereça aos irmãos a parte esta­belecida para cada um, sem arrogância ou demora, a fim de que não se escandalizem, lembrado da palavra divina sobre o que deve merecer "quem escandalizar um destes pequeninos". Se a comunidade for nume­rosa, sejam-lhe dados auxiliares com a ajuda dos quais cumpra, com o espírito em paz, o ofício que lhe foi confiado. Às horas convenientes seja dado o que deve ser dado e pedido o que deve ser pedido, para que ninguém se perturbe nem se entristeça na casa de Deus.

Declaratio art. 100

100. O Abade, reservando-se a suprema direção e inspeção, confie a oficiais competentes e a outros irmãos dignos, os encargos econômicos e administrativos, a cotidiana distribuição dos trabalhos e negócios (peque­nas permissões, distribuição dos trabalhos, a correspondência, a recepção dos hóspedes e outros encargos) a fim de permanecer livre para cumprir a sua própria obrigação.

Capítulo 32 Das ferramentas e objetos do mosteiro

RB 32,1-5

10 mar  10 jul   9 nov

 
  Q

uanto aos utensílios do mosteiro em ferramentas ou vestuário, ou quaisquer outras coisas, procure o Aba­de irmãos de cuja vida e costumes esteja seguro e, como julgar útil, consigne-lhes os respectivos objetos para tomar conta e recolher. Mantenha o abade um in­ventário desses objetos, para que saiba o que dá e o que recebe, à me­di­da que os irmãos se sucedem no desempenho do que lhes for incum­bido. Se algum deixar as coisas do mosteiro sujas ou as tratar negligen­temente, seja repreendido; se não se emendar, seja submetido à disci­plina regular.

Declaratio art. 38

38. Nossa Ordem, em sua existência concreta, como o dissemos, mani­festa o pluralismo, uma grande diversidade no seu seio, mas uma diversidade cheia de harmonia e de unidade.

Essa unidade não consiste apenas na finalidade comum a todos os membros da Ordem, mas também na aceitação dos múltiplos meios usados para atingir esse fim. Tais meios não devem ser considerados como elementos separados, mas integrados numa síntese vital.

Nesta Declaração, é claro, não pretendemos elaborar uma espécie de tratado da vida monástica que prometemos viver na Ordem Cisterciense. Apenas expomos alguns pontos que podem e devem inspirar e orientar atualmente nossas atividades e instituições[60].

Capítulo 33 Se os monges devem possuir alguma coisa de próprio

RB 33,1-8

11 mar  11 jul  10 nov

 
  E

specialmente este vício deve ser cortado do mosteiro pela raiz; ninguém ouse dar ou receber alguma coisa sem ordem do Abade, nem ter nada de próprio, nada absolutamente, nem livro, nem tabuinhas, nem estilete, absolutamente nada, já que não lhes é lícito ter a seu arbítrio nem o próprio corpo nem a vontade; porém, todas as coisas necessárias devem esperar do pai do mosteiro, e não seja lícito a ninguém possuir o que o Abade não tiver dado ou permitido. Seja tudo comum a todos, como está escrito, nem diga nem tenha alguém a presunção de achar que alguma coisa lhe pertence. Se for surpreendido alguém a deleitar-se com este péssimo vício, seja admoestado primeira e segunda vez, se não se emendar, seja submetido à correção.

Declaratio arts. 50-51

50. Não abraçamos a pobreza para ter a experiência da falta dos bens materiais ou por desprezo deles, mas para adquirir a liberdade dos filhos de Deus e usarmos deste mundo como se deIe não usássemos[61], sabendo que a figura deste mundo é transitória[62]. Desejamos ser pobres com o Cristo[63], renunciando à posse e à procura das riquezas. Somos, deste modo, também verdadeiros discípulos da Igreja primitiva, onde ninguém dizia possuir algo, mas tudo lhes era comum[64]. Libertamo-nos, assim, das preocupações materiais para que o nosso coração esteja onde se acha o nosso tesouro, em e com o Cristo e a Igreja.

51. No entanto, enquanto vivemos neste corpo, é-nos preciso usar das coisas deste mundo. O espírito de pobreza, porém, que é fruto do voto, deve ordenar o uso das coisas para nosso proveito e o do próximo observando o respeito devido às criaturas. Façamos, portanto, tudo para que a nossa renúncia redunde em benefício dos pobres de hoje. Empreguemos os honorários adquiridos pelo nosso trabalho para auxiliar o próximo e a Igreja. Para isso, é de máxima conveniência que nos entreguemos a trabalhos tais que possamos conseguir, por meio deles, o necessário para a nossa subsistência, para ajudarmos os outros[65] e também para que possamos conservar a natureza criada sadia e intacta.

Capítulo 34 Se todos devem receber igualmente o necessário

RB 34,1-7

12 mar  12 jul  11 nov

 
  C

omo está escrito, repartia-se para cada um conforme lhe era necessário. Não dizemos, com isso, que deva haver acepção de pessoas, o que não aconteça, mas sim consideração pelas fraquezas, de forma que quem precisar de menos dê graças a Deus e não se entristeça por isso; quem precisar de mais, humilhe-se em sua fraqueza e não se orgulhe por causa da misericórdia que obteve. E, assim, todos os membros da comunidade estarão em paz. Antes de tudo, que não surja o mal da murmuração em qualquer palavra ou atitude, seja qual for a causa. Se alguém for assim surpreendido, seja submetido a castigo mais severo.

Declaratio art. 15-17

15. Nossa Ordem é, primariamente, uma certa realidade social. Compõe-se de várias Congregações, mosteiros e de indivíduos vincu­lados por múltiplas relações. Cada um de nós deve ter uma noção clara dessa realidade concreta, não apenas de sua estatística, mas principal­mente da vocação, dos encargos e das aspirações dos co-irmãos e das circunstâncias concretas nas quais se vive esta vocação.

Existem, hoje, mosteiros Cistercienses na Europa, Ásia[66], África[67] e nas duas Américas[68], com condições econômicas e culturais muito diferentes. Alguns se acham em terras de missão, mas a maior parte no âm­bi­to dos países que até agora viviam - e muitos ainda vivem - da tradi­ção cristã. Alguns dos nossos monges pertencem a uma das chamadas igre­jas orientais (os monges AEthiopici e Abessini), mas também os outros diferem profundamente entre si pela língua, mentalidade e educa­ção próprias de cada região. Essa diversidade geográfica, cultural, social e eclesiológica cria situações muito complexas. Em muitos casos, quase cada comunidade tem seus problemas e desejos, que derivam de suas circunstâncias especiais.

A Ordem Cisterciense mantém relações amistosas com Comunidades de Amigos no que se refere aos nossos mosteiros atuais, ou supressos, mas ainda existentes e com comunidades de Cistercienses que professam a Confissão Augustana.

16. Mesmo quanto ao modo de vida ao qual os diversos mosteiros se consideram chamados, há grande variedade. Alguns mosteiros dedicam-se à vida chamada contemplativa, enquanto em outros exercem-se várias obras de apostolado como a cura pastoral nas paróquias, a educação da juventude nas escolas, diversas obras do ministério sacerdotal, trabalhos científicos e culturais, etc. A maior parte dos membros da Ordem, nos mosteiros masculinos, não só possui o sacerdócio, mas considera o exercício do ministério sacerdotal parte integrante de sua vocação[69]. O equilíbrio entre a oração e as atividades, a freqüência e a espécie de contatos com o mundo extra-claustral, a importância das atividades a rea­lizar fora do mosteiro, a natureza e a forma de vida comum são tão diversamente concebidas que, à primeira vista, só se patenteia a diversidade e a unidade se revela, antes, nas aspirações e nos valores da conversação monástica do que na organização uniforme da vida.

17. No entanto, a diversidade existente na Ordem, mesmo em questões fundamentais, não é tal que torne impossível ou quase supér­fluo qualquer esforço comum de renovação. É certo que, em muitas questões, como já dissemos, cada mosteiro e congregação devem chegar às suas próprias conclusões práticas. Como, porém, possuímos muitos valores provenientes da tradição comum e nos defrontamos com quase os mesmos problemas da Igreja de hoje, no mesmo mundo atual que, aceleradamente se unifica, a elaboração das soluções comuns em múltiplos setores da vida não somente é útil, mas até bastante neces­sária. Problemas comuns postulam comuns soluções:

a)        quanto aos valores essenciais da vida religiosa, como são os votos emi­tidos conforme os conselhos evangélicos, a vida comunitária, o trabalho e o apostolado, a vida litúrgica, etc.;

b)       quanto aos valores fundamentais da vida monástica, que se radicam na tradição espiritual da Ordem e na vida espiritual hodierna da Igreja;

c)        quanto aos problemas gerais da estrutura jurídica dos mosteiros, das Congregações e da Ordem, às questões das atribuições dos superiores, da participação responsável de todos os membros nos assuntos do mosteiro;

d)       quanto às formas de cooperação e auxílio mútuo entre as comu­nidades, no que diz respeito aos pareceres e planos comuns.

Tudo o que se estatui desse modo geral, exige a ulterior aplicação a cada Congregação e mosteiro.

Capítulo 35 Dos semanários da cozinha

RB 35,1-11

13 mar  13 jul 12 nov

 
  Q

ue os irmãos se sirvam mutuamente e ninguém seja dispensado do ofício da cozinha, a não ser no caso de doença ou se se tratar de alguém ocupado em assunto de grande utilidade; pois por esse meio se adquire maior recompensa e caridade. Para os fracos, arran­jem-se auxiliares, a fim de que não o façam com tristeza; ainda confor­me o estado da comunidade e a situação do lugar, que todos tenham au­xi­lia­res. Se a comunidade for numerosa, seja o Celeireiro dispensado da co­zinha, e também, como dissemos, os que estiverem ocupados em as­sun­tos de maior utilidade. Os demais sirvam-se mutuamente na cari­dade. O que vai terminar sua semana faça, no sábado, a limpeza; lavem as toalhas com que os irmãos enxugam as mãos e os pés; ambos, tanto o que sai como o que entra, lavem os pés de todos. Devolva aquele ao Celeireiro os objetos do seu ofício, limpos e perfeitos; entregue-os outra vez o Celeireiro ao que entra, para que saiba o que dá e o que recebe.

RB 35,12-18

<

14 mar  14 jul  13 nov

 
  O